queridos pet's

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Homenagem a Senadores e Deputados!!!

Disputa de poder

Composição: Almir de Araújo/Marquinho Lessa/Hércules Correa/BalinhaÉ ruimDe segurarAssim não dá é padecerDo jeito que estáVamos pagando pra sobreviverSe trocou não mudou nadaJogo de carta marcadaÉ só perderA panelinha armadaTem muita brasaE ninguém bota pra ferverIsso aqui tá brincadeiraOu será que não estáBrasileiro, brasileiraTá na hora de gritar
ChegaDe levar tanta porradaVamos ver se a papeladaDessa vez é pra valerChegaTá virando sacanagemAs promessas são bobagensQue só faz aborrecerCansadoRasgo a fantasiaDessa anarquiaNa disputa do poder
Piuí, piuí, puá, puáEu quero ver onde essa zorraVai parar

sábado, 20 de março de 2010

grrrr

Grrrrrrrrr! Hoje é véspera de concurso! Nervosa! Revisando! Ai ai ai!!!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Quem sou eu?

"Quem você pensa que é?
perguntou pra mim de queixo em pé...
Sou forte,
fraca,
generosa,
egoísta,
angustiada,
perigosa,
infantil,
astuta,
aflita,
serena,
indecorosa,
inconstante,
persistente,
sensata e corajosa,
como é toda mulher,
poderia ter respondido,
mas não lhe dei essa colher.
Martha Medeiros
Simone de Beuvoir Rosa LuxemburgoMauren MaggiMartha Medeiros e Elisa LucindaMarisa MonteAline MoraesMaria GaduFernanda Montenegro
Kate Winslet
Nicole Kidman
Reneé ZellwegerJulia Roberts


quinta-feira, 18 de março de 2010

A gente se vira com o que tem...






Essas fotos são dos gatos de minha vizinha... Ela tem 5 gatos adultos e 7 filhotes, no momento... então, a disputa pela comida é grande... Nas fotos, vemos um dos filhotes comendo com muita vontade uma espiga de milho (nunca imaginei um gato que come milho). Ele defendia a espiga, não deixando nem a sua "mamãe gata" se aproximar de sua exótica comida. Alguns dos outros filhotes admiram, ao redor. Comentei com minha mãe, no momento da cena (poética do cotidiano) que este gato deveria ser da minha amiga Patrícia, que é vegetariana; ele saberia se adaptar muito bem, eheheh. Brincadeiras a parte, são cenas engraçadas, belas, mas ao mesmo tempo demonstram a luta diária pela vida... As crianças (e muitos adultos) deviam pensar nisso quando rejeitam comida... É assim, a gente se vira com o que tem!


quarta-feira, 17 de março de 2010

Noturno

Infelizmente, a postagem de ontem não deu certo... não consegui formatar e como sou alguns zeros a esquerda em informática... enfim...
Mas o que que eu tinha pra dizer hoje.. bem, realmente não lembro de nada pra dizer... domingo farei um concurso e minha cabeça está apenas nisso, esta semana... Mas enfim, vou tentar fazer agora, aqui, de improviso, algum poema... Vamos ver que bicho dá!

Noturno

Encosta a noite na minha janela
Seu sussurro de grilo
Me convida a bailar com a lua.
Dama negra, branca, dourada
Musa dos loucos e poetas das ruas.

O abraço morno da noite
Envolve a cidadezinha
Que silenciosa e calma
Traduz tanta melodia...
Canta e sonha a moça da janela:

Perdida de amor
Sai a bailar com a lua...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Divã







Ontem Iuri e eu assistimos Divã. O filme não é maravilhoso, mas tem seu valor e merece comentário. Em alguns momentos dá uma sensação de que os atores decoraram demais o texto, e que isso tira a naturalidade das falas. Contudo, é um filme sincero, sensível, que fala da busca do autoconhecimento, do amor e suas falhas e da amizade. Divã dá vontade de ligar para as amigas e dizer: "eu te amo, tu é linda e muito importante pra mim". Faz a gente refletir sobre nossas próprias ações e o rumo que damos às nossas vidas. Divã é isso; não é nem mais nem menos do que a vida cotidiana de uma mulher que resolve fazer análise e descobre que sua vida é do jeito que tinha que ser, mas não é por isso, que não é feliz e maravilhosa. Mesmo perdendo, ela tem o que quer ou pelo menos sabe buscar... e o que ela quer? Ser feliz, como todos nós; só e apenas isso. Se ainda não viram, principalmente mulheres, peguem um bom vinho e chocolate, juntem aquelas amigas mais preciosas e assistam. Risos e lágrimas virão se estiverem ao lado delas; aquelas às quais vocês seguram a mão; aquelas que são capazes dos maiores micos para ajudar você; aquelas que vocês não precisam ouvir a voz nem falar todos os dias para saber que amam você e que estarão sempre por perto. Divã eu dedico a todas as minhas amigas, aquelas que já me ouviram nesse divã que é a vida; principalmente Sofia e Andrieli, minhas irmãs, estrelas do meu céu, que sei que sempre estarão lá.

quinta-feira, 11 de março de 2010

bem sujo!!!

O texto costuma ser atribuído na internet ao Arnaldo Jabor, mas não é dele, como informou meu amigo Marcelo Cordeiro. De qualquer forma, é muito bem escrito, apesar de falar de coisas sórdidas. Pensei nele porque meus vizinhos estavam escutando "música", coisas tão agressivas e um som tão alto que tive que fechar a janela e mesmo assim, tive dor de cabeça e precisei parar de estudar.

O que as mulheres serão para as gerações futuras?


Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constatação: tá dominado, tá tudo dominado!!! Só dá funk! O "neo forró" tenta uma reação, mas suas letras não são cafajestes e não trazem a "alegria compulsória" que o brasileiro tanto gosta.

Aí não dá, né, pô?! Como é que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar...

A indústria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse negócio, mas o jabá e a televisão devem insistir na onda por um bom tempo. Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima. A Bandeirantes até já vai lançar um programa semanal com duas horas de duração dedicado ao funk. Isso, claro, até o "Tigrão", a mente por trás do "movimento", ser domesticado, o que, em termos mercadológicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo.

O "Tigrão", aliás, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de março. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a névoa de ignorância (por parte do público) que encobria alguns aspectos do "movimento". Vejamos: em determinado trecho da entrevista, "Tigrão" diz: "....As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se você analisar, as letras nem são tão pesadas. Elas têm duplo sentido, até porque o público infantil ouve funk".

Muitas coisas interessantes nessas sentenças! Então vamos por partes: "...se você analisar, as letras nem são tão pesadas".

Eu analisei e ele está certo. Quem, em sã consciência, poderia achar pesada a letra do funk "Máquina de Sexo", que diz:
"Máquina de sexo, eu transo igual a um animal
A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal
Chatuba come cu e depois come xereca
Ranca cabaço, é o bonde dos careca"?
Nota-se a leveza de termos como "sexo anal", "cu", "xereca" (!) e "cabaço". "Elas têm duplo sentido...".
Procurei demais e não achei o duplo sentido no funk "Barraco III":
"Me chama de cachorra, que eu faço au-au

Me chama de gatinha, que eu faço miau

Goza na cara, goza na boca
Goza onde quiser".
Ah, agora entendi! "Goza na cara" é porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. Aí ela diz "Goza na cara!". Que coisa... "...até porque o público infantil ouve funk". Eis uma verdade e a preocupação do "Tigrao" se justifica.

Foi pensando nas crianças que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordenação motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk "Jonathan II", de edificante letra:

"De segunda a sexta, esporro na escola
Sábado e domingo, eu solto pipa e jogo bola
Mas eu já estou crescendo com muita emoção
E eu já vou pegar um filé com popozão".
7 anos!!! 7 anos!!! Pô, foi mal... A culpa é minha, gente grande, feia e besta, que não entendo.

Então, vamos lá, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditório: todo mundo junto, um, dois, três e já: "A malícia está na cabeça do adulto, a criança só quer se divertir. Onde já se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianças que passam fome na rua ninguém fala nada...". Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditório.

É bom que se diga que as crianças que passam fome nas ruas são um sério problema social, cuja resolução deve ser uma das prioridades máximas de qualquer governo (detalhe sem importância: os funks da moda não passam nem perto dessa questão.. Mas, beleza, vamos lá...). Só que é um problema do governo, a gente não tem nada com isso, não é mesmo? Ao invés disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a "pegar um filé com popozão". Afinal, nunca é cedo demais pra mostrar pro papai que se é um garanhão, que não deixa passar nenhuma cachorra. Isso é que é uma infância saudável!

E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo "Bambalalão", "Sítio do Pica-Pau Amarelo" e ouvindo aqueles discos da "Turma do Balão Mágico". Ao invés disso podia estar por aí, transando umas cachorras...

Enquanto a gente dá risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher não passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que só um tapinha não dói. Se "só um tapinha não dói", o primeiro deveria ser dado no popozão dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas.

Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e porque ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio?

Você, cadela... quero dizer, mulher que está lendo isso, levante-se e lute! Não seja uma cachorra! Um tapinha dói, sim! Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez , Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internéticas, Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de miséria intelectual! Conto com vocês!!!

E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde: "Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é criminosa."

Ah, e essa é uma das que meus vizinhos estavam ouvindo. Olha só (tirem as crianças de perto):
Créeeeeeeeeeeeeeeeu
É créu na perereca

Toma perereca (2x)

O bagulho é esse
Devagarinho devagarinho
quem quer créu na perereca
agora da um gritinho

ah perereca ah perereca ah perereca
quer um créu (2x)

é créu é créu é créu é creu
na perereca (2x)

é créu (4x)

AGORA, ALGUÉM ME DIGA, COMO CONSEGUEM SE DIVERTIR OUVINDO ISSO. ONDE O MUNDO VAI PARAR? FICO TRISTE SÓ DE PENSAR!!!

terça-feira, 9 de março de 2010

Texto de Miriam Leitão, sobre Cotas

Domingo, Março 07, 2010
MÍRIAM LEITÃO Destruir a obra -
O GLOBO - 07/03/10

É a temporada. Tempo de sofismas e argumentos tortos. Tempo das
mesmices repetidas com ares de descobertas recentes. Hora de escapar
do debate sobre a questão racial brasileira.

Não precisava ser assim. Podia ser um tempo de avanços. Mas os que
negam o racismo brasileiro preferem esse cerco à inteligência, ao
óbvio, ao progresso.

Num ambiente negacionista, foi um alívio ouvir as explicações simples
e diretas da secretária de Estado americana Hillary Clinton na
Faculdade Zumbi dos Palmares, onde escolheu debater com estudantes.
Hillary defendeu as ações afirmativas dizendo que, com elas, os EUA
estão deixando para trás os vestígios da escravidão: -- Temos feito um
grande progresso com as ações afirmativas em aumentar as oportunidades
na educação, no emprego para os afro-americanos. Elas são o
reconhecimento de que as barreiras históricas criam um funil que
impede o acesso do grupo discriminado a níveis superiores de educação.

É preciso alargar a entrada e deixar mais gente entrar. O talento é
universal, mas as oportunidades, não. O acesso na universidade não é,
no entanto, a garantia da graduação.

Hillary contou que, como professora de Direito, percebeu que muitos
alunos que entraram por ação afirmativa tiveram dificuldades maiores
pelas falhas da educação anterior. Ela se dedicou a esses alunos no
sistema tutorial: ? Simplesmente não podemos aceitar os estudantes na
universidade para deixar que eles falhem. Eles têm que ser ajudados.

O sistema americano é diferente do nosso, mas discriminação é parecida
em qualquer país do mundo. Ela barra com obstáculos sutis ou
explícitos, negados ou assumidos, a ascensão de grupos discriminados
por qualquer motivo, racismo, sexismo, ou outras intolerâncias.

Lá, eles não têm cotas, não têm vestibular; o sistema, como se sabe, é
o de application, o de se candidatar a uma vaga apresentando suas
credenciais escolares. Ao avaliar quem entra, as escolas dão pontuação
maior a quem vem de um grupo discriminado.

Cada universidade tem um critério, um método e uma meta diferente, mas
todas buscam um quadro de alunos com diversidade.

Os alunos com menos chance de estar lá têm preferência nas bolsas para
as caríssimas universidades privadas americanas.

-- Estou muito orgulhosa das conquistas dos últimos 50 anos do
movimento dos direitos civis, pelos que lutaram como Martin Luther
King e outros, mas não posso dizer que o meu país não tem racismo, não
tem sexismo -- disse a mulher que comanda a mais poderosa diplomacia do
mundo e é chefiada por um negro, que preside o maior país do mundo.
Ela não vê a sua ascensão, nem a do presidente Obama, como provas de
que não há barreiras para negros e mulheres.

Essa sinceridade é encantadora porque é rara no Brasil.

Esse reconhecimento da existência do problema, e de que ele é vencido
por ações concretas de políticas públicas e de empresas, dá esperança.

No Brasil, o esforço focado nos negros é chamado de discriminação. E
os brancos pobres? Perguntam.

Eles estão também nas ações afirmativas, e nas cotas, mas o curioso é
que só se lembre dos brancos pobres no momento em que se fala em
alguma política favorável a pretos e pardos.

É temporada da coleção de argumentos velhos que reaparecem para evitar
que o Brasil faça o que sugeriu Joaquim Nabuco, morto há 100 anos, em
frase memorável: "Não basta acabar com a escravidão. É preciso
destruir sua obra." Diante de qualquer proposta para reduzir as
desigualdades raciais, principal obra da escravidão, aparece alguém
para declamar: "Todos são iguais perante a lei." E são. Mas o
tratamento diferenciado aos discriminados existe exatamente para
igualar oportunidades e garantir o princípio constitucional.

O senador Demóstenes foi ao Supremo Tribunal Federal com um argumento
extremado: o de que os escravos foram corresponsáveis pela escravidão.
"Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o
mundo antigo, para a Europa.

Não deveriam ter chegado na condição de escravos, mas chegaram. Até o
princípio do século XX, o escravo era o principal item de exportação
da pauta econômica africana." Pela tese do senador, eles exportaram, o
Brasil importou.

Simples. Aonde o crime? Tratava-se apenas de pauta de comércio exterior.

Por ele, o fato de ter havido escravos na África; conflitos entre
tribos; tribos que capturavam outras para entregar aos traficantes, e
tudo o mais, que sabemos, sobre a história africana, isenta de culpa
os escravizadores.

Trazido a valor presente, se algumas mulheres são vítimas de violência
dos maridos, isso autoriza todos a agredi-las. Ou se há no Brasil
casos de trabalho escravo e degradante, isso permite aos outros povos
que façam o mesmo conosco. Qual o crime? Se brasileiros levam outros
brasileiros para áreas distantes e, com armas e falsas dívidas, os
fazem trabalhar sem direitos, qualquer povo pode escravizar os
brasileiros.

O senador Demóstenes é um famoso sem noção e com ele não vale a pena
gastar munição e argumentos. Que ele fique com sua pobreza de
espírito. O que me incomoda é a incapacidade reiterada que vejo em
tantos brasileiros de se dar conta do crime hediondo, do genocídio que
foi a escravidão brasileira.

Não creio que as ações afirmativas sejam o acerto com esse passado.

Não há acerto possível com um passado tão abjeto e repulsivo, mas
feliz é a Nação que reconhece a marca dos erros em sua história e
trabalha para construir um futuro novo. Feliz a Nação que tem, entre
seus fundadores, um Joaquim Nabuco, que nos aconselha a destruir a
obra da escravidão.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Da Mulher!

Como sou a favor das lutas, mas contra os radicalismos, vou desejar, sim, Feliz Dia da Mulher!
Ao contrário de um texto que li, que criticava o dia, dizendo ser este uma submissão, que era simbolizada pela rosa (e os estereótipos de fragilidade, pureza, etc) e que não passava de meros parabéns... Pois bem, acho que a gente vê o que quer ver e tem gente meio recalcada que prefere ver assim.
A Rosa é um flor como tantas outras, muito bela e eu, particularmente, que defendo as igualdades, discuto seja com quem for sobre os direitos femininos, não me importo nem um pouco em ganhar rosas, em qualquer momento, não só neste dia (assim como acho que tem muitos homens que também gostam de rosas, não se importam de ganhar uma flor, e não são submissos ou frágeis por causa disso) e nem de receber os Parabéns! Não é um parabéns pelo simples fato de ser mulher; é pelos séculos de força e luta do sexo que não é frágil; é parabéns por toda a história da mulher, que sempre teve em seu caminho muitos empecilhos. Receberemos flores, receberemos os parabéns, mas não deixemos isso como algo vazio; temos que recebe-los daqueles que entendem e apóiam a luta pela igualdade, que valorizam as conquistas e que sabem que estamos longe do ideal. Feliz Dia Da Mulher, sim, mas com consciência da nossa situação e de tudo que é preciso fazer para melhorá-la. Dia 8 de março não é um dia como qualquer outro, é um dia que simboliza a luta contra o preconceito, assim, como o Dia da Consciência Negra, ou o Dia Mundial de Combate a AIDS, entre tantas outras datas marcantes, nas quais se comemoram as conquistas mas também, como em todos os outros dias, se avançam na continuidade das melhorias.
Contudo, é preciso que a mulher não naturalize sua condição, como muitas fazem e como vemos com frequência na mídia. Elogios a jornada tripla ou dupla não devem ser aceitos. Como vi hoje no Jornal hoje, que mais de 85% das mulheres de mais de 10 anos fazem tarefas domésticas enquanto pouco mais de 43% dos homens fazem o mesmo. Enquanto as horas das tarefas, as das mulheres é de mais de 24h/semana enquanto dos homens é de pouco mais de 9h/semana. As mulheres entrevistadas sobre os dados elogiavam-se por serem guerreiras ou diziam que isso era consequência das próprias escolhas. Então façamos outras escolhas, nos imponhamos para que estes índices sejam mais paritários nos próximos tempos. Não devemos deixar de comemorar as conquistas, mas não devemos naturalizar nossa condição, que é sempre fruto de uma cultura enraizada há milênios.
Por fim, a todas as mulheres que lutam e sabem que devem lutar e a todos os homens que apóiam e encaram as mudanças com orgulho de suas mulheres, Feliz Dia Internacional da Mulher!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Aviso da Lua que Menstrua

Aviso da Lua que Menstrua
Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Dicas...

Um exercício. Vou indicar os 5 primeiros filmes, cds e livros que me vêem a cabeça.

Dicas de filmes:
1- Um Violinista no Telhado - Direção: Norman Jewison Gênero: Musical País: EUA Ano:1971 Sinopse: Tevye (Topol) é um pobre leiteiro que mora em uma aldeia na Ucrânia, junto com sua mulher e filhas. O musical irá mostrar a imigração dos judeus para os Estados Unidos devido à intimição que a Rússia czarista exigiu. Conquistou três Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Adaptada e Som, foi indicado a outras cinco categorias, incluindo Melhor Filme e Diretor.

2- Asas do Desejo - Direção: Wim Wenders Gênero: Romance/Drama País: Alemanha/França Ano: 1987 Sinopse: Dois anjos, invisíveis aos olhos humanos, ajudam a proporcionar conforto para as almas sozinhas e deprimidas após estas passarem para o Outro Lado. Certo dia um deles passa a querer experimentar as sensações que somente os vivos possuem, e resolve abrir mão de sua imortalidade em troca de poder ser um deles. Ele logo descobrirá o amor em uma trapezista de circo. (este filme serviu de inspiração para o posterior e famosos Cidade dos Anjos)

3 - Tão Longe, Tão Perto - Direção: Wim Wenders Gênero: Drama País:Alemanha Ano: 1993 Sinopse: Este filme é a seqüência de "Asas do Desejo" (1987) - o mesmo que, em 1998, recebeu a versão hollywoodiana "Cidade dos Anjos". Mais uma vez, trata de um grupo de anjos que observam distantes o dia-a-dia dos cidadãos da capital alemã - agora recém unificada.
Apesar dos anjos serem proibidos de interferir na vida humana, Cassiel (Otto Sander) impulsivamente quebra esta regra quando uma menininha cai do terraço de um prédio e ele corre para a socorrer - o que o transforma em carne e osso. Damiel (Bruno Ganz), o companheiro de Cassiel que optou pela vida terrena no primeiro filme, trabalha agora numa pizzaria e vive com sua esposa, a trapezista Marion (Solveig Dommartin).
Peter Falk, que representou si próprio em "Asas do Desejo", volta aparecer, e o roqueiro Lou Reed (responsável pela trilha sonora) e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev também marcam presença no filme como eles mesmos.
A fotografia é impecável (marca registrada dos filmes de Wenders), mesclando a cor com o preto e branco - assim como em "Asas do Desejo", em que as cenas do anjo não são coloridas, pois, segundo o diretor, "o preto e branco revela a essência da pessoa".
Recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1993. No ano seguinte, U2 foi indicado para a Melhor Canção Original no Globo de Ouro. (Esse é meu filme favorito)

4- A Guerra dos Rochas - Direção: Jorge Fernando Gênero:Comédia País: Brasil Ano:2008 Sinopse: A história da simpática mas desastrada velhinha Dina Rocha e seus três filhos adultos - Marcos Vinicius, César e Marcelo -, que vivem em pé de guerra sobre quem deve ficar com a mãe. Durante uma das muitas batalhas familiares, Dona Dina some e até os irmãos se darem conta para começarem a procurar, parece que já é tarde demais. Recebem a trágica notícia no IML de que uma velhinha cuja descrição é de sua mãe foi atropelada por um ônibus. Enquanto os irmãos preparam o velório da mãe, mal sabiam eles que ela na verdade estava na casa ao lado com sua amiga Nonô, onde as duas foram seqüestradas por dois desastrados e divertidos aprendizes de ladrões. Mais em: http://www.aguerradosrocha.com.br/site/

5- O Curioso Caso de Benjamin Button Direção: David Fincher Gênero: Drama/Romance País:EUA Ano:2008 Sinopse: Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

Dicas de Cd's:
1 - Maria Gadú - Ano: 2009 -No Youtube:

2- Marisa Monte -Ano:1994- Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão. No Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=sXofgJn2OOg

3- Legião Urbana - O Descobrimento do Brasil. Ano:1993 (Dispensa apresentações)

4- Tom Jobim - Perfil Vol. 1 e 2 - Ano 2007. (Dispensa apresentações)

5- Leoni Ao Vivo. Ano: 2005. No Youtube:

Dicas de Livros
1- O Sangue dos Outros - Simone de Beauvoir. Romance existencialista. País: França

2- O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano. Crônicas. País: Uruguai

3-Caderno H - Mário Quintana. Crônicas e poemas. País: Brasil

4- Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu. Crônicas. País: Brasil

5- Memória e Sociedade - Ecléa Bosi . Antropologia (mas pode ser lido como um livro de histórias/romance). País: Brasil

quarta-feira, 3 de março de 2010

Resenha: Ensaio sobre o Dom, de Marcel Mauss
Por Letícia de Abreu Gomes

1.
Nesta resenha busca-se recapitular algumas idéias da obra mestra de Marcel Mauss, Ensaio sobre o dom, publicada em 1923, bem como, trazer uma breve narrativa da vida do autor.
Marcel Mauss é francês, nasceu em Épinal, em 10 de maio de 1872 e veio a falecer em Paris, em 10 de fevereiro de 1950. Junto com seu tio Émile Durkheim, funda a escola sociológica francesa, sendo assim, considerado sociólogo, mas também, o pai da antropologia francesa, sendo ele o primeiro francês a desenvolver a etnologia e, mesmo que ele mesmo não tenha realizado, incentivou seus alunos a realizarem trabalho de campo. Opondo-se a psicologia, que estudava as manifestações individuais, Mauss buscou compreender as manifestações coletivas autônomas e inconscientes, mas que estão presentes na consciência do indivíduo, entendo ser esse o papel das Ciências Sociais. Assim como Durkheim, para Mauss também o TODO precede as partes, ou seja, a sociedade não é o acúmulo das experiências individuais, mas está acima destes. Ele utiliza o método comparativo, sendo o primeiro francês a interessar-se pelos fenômenos e fatos sociais nas sociedades não ocidentais (“tribos primitivas”).
Deixou suas idéias de legado a seus alunos, que vieram a desenvolvê-las com mais avidez, tendo eles então fundado o estruturalismo francês em Antropologia: Georges Dumézil, Claude Lévi-Strauss e Louis Dumont.
Apesar de ser socialista, Mauss tentou separar suas pesquisas científicas (sem discutir o sucesso desta tentativa) de suas idéias políticas, apesar de ter publicado alguns artigos políticos sobre a Revolução Bolchevique e o socialismo.
Tendo perdido muitos colegas de academia na I Guerra Mundial, inclusive o tio em 1917, que não suportou a morte de seu filho, Mauss teve que completar muitos trabalhos inacabados de seus colegas mortos e teve que assumir o comando da escola sociológica francesa no lugar de seu Durkheim.

2.
A partir de seus estudos sobre a Polinésia, comparando outras sociedades, pode-se perceber na obra deste autor que todos os princípios, matrimoniais, econômicos, políticos, religiosos, jurídicos e diplomáticos estão fundamentados nas alianças não somente entre indivíduos, mas entre pessoas morais (coletividades, geralmente representada por um chefe tribal), que se estabelecem a partir do Dom e da Dádiva, ou seja, a partir da obrigação de dar e retribuir. Esta obrigação, ao mesmo tempo em que é imposta, entre aqueles que a praticam, tem seu caráter de voluntariedade e solidariedade, rompendo assim com as dualidades positivistas e do sistema capitalista. Mas mesmo com esse caráter de solidariedade, elas representam interesses sociais.
Um sujeito que recebe uma dádiva (taonga) tem a obrigação de retribuir, com algo de igual ou maior “valor” (por não achar outra palavra). Porém estas trocas não se realizam apenas com objetos materiais, podendo-se oferecer e retribuir com festas, banquetes, canções, etc., e também não é necessário retribuir com o que se recebeu, podendo um receber um bracelete e retribuir com um banquete, por exemplo. Porém, as alianças formadas entre indivíduos ou grupos para as trocas são vitalícias, sendo considerado amigo apenas aquele que não se recusa a delas participar. Vê-se assim, que estas trocas, para Mauss, estão instituindo a ordem social e são chamadas por ele de fenômenos sociais totais.
3.
Mauss estuda também o potlatch, entre os índios do noroeste americano, a que ele chama de prestações totais do tipo agonística. Estas relações são representadas por combates entre chefes, cada um representado a sua “linhagem”, sendo que estes se enfrentam algumas vezes até a morte. Porém, o potlatch, pode ser também um combate representado pela doação e distribuição das riquezas, ganhando aquele chefe que for mais generoso, ou seja, o que se desfizer de todas as suas riquezas, adquirindo assim honra e prestígio.

4.
Voltando à Polinésia, veremos agora porque é necessário a retribuição. Segundo Mauss, os taongas (coisa dada) estão ligados a quem o deu, ao seu mana, seu espírito, sua força mágica, sendo este tanto um indivíduo como um clã. Este taonga possui um hau, ou seja, o espírito da coisa dada, que é uma propriedade pessoal. Isto faz com que, mesmo após ter sido dada, a coisa, de alguma forma, continue ligada ao seu doador, ou seja, ela não é inerte. “O que, no presente recebido e trocado, cria uma obrigação, é o fato de que a coisa recebida não é inerte. Mesmo abandonada pelo doador, ela ainda é algo dele. Por meio dela, o doador tem uma ascendência sobre o beneficiário (...) Pois o taonga é animado pelo hau de sua floresta, se seu território de seu solo, é verdadeiramente “nativo”: o hau persegue seu detentor” (1974: p.54). O informante de Mauss declara que se ele não retribuir o hau, cairá sobre ele um grande mau, até mesmo a morte. Pode-se perceber então, que a ligação entre o doador e o beneficiário não é apenas material, mas também uma ligação espiritual, um vinculo de almas, através do hau do taonga.

5..
Pensando a questão da religião, Mauss argumenta que há também a obrigação de dar e retribuir entre homens e deuses. Enquanto os homens têm obrigação de realizar oferendas e sacrifícios aos deuses, estes, enquanto verdadeiros proprietários das coisas têm obrigação e sabem retribuir. Muitas vezes o chefe da tribo é o deus personificado e é em nome deste que é feito o sacrifício. Neste âmbito também entra a esmola, onde os deuses concedem que, o que lhes seriam destruídas em “sacrifícios inúteis”, sejam dados aos pobres e às crianças, sendo que Mauss vê aí um “espírito de justiça”, sendo que, aquele que tem uma boa colheita (Sudão, p.65), tem a obrigação de ser generoso, caso contrário, correria o risco de perder seus bens.

6.
Nesta secção, traz-se a conclusão de Marcel Mauss, onde ele traça um paralelo entre as obrigações de dar e receber nas sociedades primitivas e o sistema econômico e social das sociedades modernas.
6.a.
Para Mauss, as sociedades modernas têm papel central nas relações de compra e venda, mas, felizmente as coisas ainda têm um valor sentimental. Ainda quem aceitou a dádiva sem retribuí-la torna-se inferior a quem ofereceu. O convite deve ser retribuído assim como a “cortesia”. Ou seja, na nossa vida social ainda é necessário retribuir, de acordo com o autor, não podemos “ficar em dívida”. Além disso, ainda o convite deve ser feito e ser aceito. Mauss argumenta que até recentemente em algumas partes da Alemanha e da França, toda a aldeia participava da festa de casamento, e a ausência de alguém era vista como mau presságio e prova de inveja. As coisas vendidas têm ainda alguma alma, são ainda seguidas e seguem seu antigo proprietário. Ele dá alguns exemplos de alguns procedimentos utilizados para separar a coisa comprada do antigo proprietário, como por exemplo, para os animais comprados esquecessem seu antigo dono e não desejassem retornar a casa deste era necessário chicotear o animal, entre outros procedimentos.
Mas é nas relações comerciais, entre industriais e trabalhadores, que Mauss mais aprofunda suas idéias, podendo-se perceber aí uma forte influência de seu posicionamento político, o socialismo. Em primeiro lugar, o autor vê uma “desumanização” no desenvolvimento de nossa sociedade, nossos códigos. Assim como Marx vê um “regresso” econômico, sendo que o sistema capitalista estaria fadado a ruína, pois as sociedades teriam uma tendência a voltar às sociedades coletivas, Mauss vê esse regresso no campo do direito e da moral. Para ele, os direitos entre comerciantes e industriais acham-se em conflito com a moral, já que os produtores têm uma vontade de acompanhar o que eles produziram, tendo também a aguda sensação de que eles não participam dos lucros. Então, ele acredita que um retorno a alguns costumes antigos seria uma reação sadia ao sistema capitalista, porém, adaptados à sociedade moderna. Um direito mais próximo à vida social e moral e não tão insensível.
O trabalhador deu sua vida e seu trabalho à coletividade, de um lado, e de outro a seus patrões. Em conseqüência disso, os trabalhadores mereceriam mais do que seus salários. Os custos com a previdência social e a seguridade (contra doença, desemprego, etc.) de seus trabalhadores deveria fazer parte das despesas de cada indústria. Sendo assim, os ricos se tornariam mais generosos; enquanto os pobres teriam que ter maior consciência do quanto contribuem para a coletividade, para assim, cobrarem uma restituição das dádivas que oferecem durante toda a sua vida e defender seus interesses.
Ele ressalta que é preciso que os ricos redescubram a importância de dar, que chama de “dispêndio nobre”. Os ricos então, de maneira livre, mas também obrigatória, tornar-se-iam uma espécie de tesoureiros dos bens de seus concidadãos. Comparando com as sociedades antigas, ele reconhece uma necessária hierarquia na sociedade moderna, na qual os ricos exerceriam o papel dos antigos chefes das sociedades tribal. “A seguir, é preciso mais preocupação com o indivíduo, sua vida, sua saúde, sua educação –o que é rentável, aliás -, sua família e o futuro desta. É preciso mais boa fé, sensibilidade e generosidade nos contratos de arrendamento de serviços, de locação de imóveis, de venda de gêneros alimentícios necessários. E será preciso que se encontre o meio de limitar os frutos da especulação e da usura”. O trabalho, então, é sempre visto como uma dádiva. O indivíduo precisa trabalhar, precisa aprender que deve contar mais com si do que com os outros, defendendo seus interesses pessoais e do grupo. Para o autor, o excesso de comunismo seria tão prejudicial quanto o do individualismo de nossos contemporâneos. O que podemos perceber, é que Mauss defende que os pobres devem tornar-se mais individualistas, defendendo seus interesses, e o rico, menos individualista e mais solidário. Ora, este princípio de dar e receber faz parte do espírito social humano e é por isso que o indivíduo tende a voltar a ele.
6.b.
Em relação à economia, Mauss relata que, mesmo que os economistas tentem comparar os sistemas econômicos em diversas sociedades, em muitas delas a acumulação de riquezas não tem um valor mercantil. Argumenta que os gastos luxuosos muitas vezes têm caráter religioso, cercado de ritos, mitos, cerimoniais e obrigações rituais. Não que estas dádivas sejam desinteressadas. Pelo contrário, elas têm interesses em pagar serviços e coisas e também manter alianças proveitosas que não podem ser recusadas. Mesmo no potlatch onde há um grande dispêndio das riquezas, muitas vezes parecendo um prazer infantil de destruir somente pelo prazer de destruir, não é desinteressado. Essas dádivas estabelecem hierarquia entre chefes e vassalos, entre vassalos e servidores. Dar é manifestar superioridade. Essa superioridade também pode ser percebida quando se retribui com um bem maior do que o recebido. Não se retribui com usura apenas para recompensar o doador, mas também para humilhá-lo.
Pode-se ver assim, que mesmo havendo interesse, esses interesses nem sempre são econômicos. De acordo com Mauss, foi nossa sociedade que transformou o homem num “animal econômico”. De acordo com ele, ainda pode-se encontrar entre as massas e as elites um dispêndio “puro e irracional”. Reconhece que é necessário gastar não apenas com puro dispêndio, mas que este é necessário para estabelecer a paz ao conjunto e ao indivíduo. Homens seguros de serem devidamente recompensados, executam melhor seus trabalhos e com maior rendimento. Está aí a noção de dom e dádiva entre a indústria e o produtor.
6.c.
Por fim, Mauss coloca que os fatos estudados são fatos sociais totais, pois põem em ação a totalidade da sociedade e suas instituições, como já foi dito no início do trabalho. Segundo ele, as sociedades não são estudadas como imóveis, mas sim no seu estado dinâmico, e nem foram dissecadas (direitos, ritos, valores, etc.). A sociedade foi estudada como um todo vivo em movimento.
É necessário, segundo ele, o estudo de fatos sociais, primeiro, para atingir a generalidade, descobrindo o fato que tem chance de ser universal. Mas sobretudo, tem a vantagem de ser realidade. “Conseguem-se assim ver as próprias coisas sociais, no concreto, como são. Nas sociedades, apreendemos mais que idéias ou regras, apreendemos homens, grupos e seus comportamentos”. Vê-se em Mauss uma necessidade de observar a sociedade em sua totalidade e não separada em diversos elementos.
Fazendo uma espécie de crítica às sociedades modernas, Mauss argumenta que as sociedades mais dadivosas eram menos tristes, menos avarentos, menos sérios, mais alegres, mais generosos. Nestas sociedades não haveria meio termo, ou se confia ou não; renunciando a autonomia e dispondo-se a dar e retribuir. De acordo com ele, eles na tinham escolha. Quando dois grupos se encontram, ou se afastam ou combatem, ou negociam, vivendo numa instabilidade entre a festa e a guerra. Dessa forma, muitos povos substituíram a guerra e/ou o isolamento pela estagnação pela aliança, a dádiva e o comércio. Por fim, segundo o autor essa sabedoria e solidariedade de depor as armas deverá ser sabidas no futuro de nossa sociedade, sem massacrar nem se opor, sabendo dar sem se sacrificar. Para encerrar, uma bela, talvez bastante utópica, citação de Mauss, que contém muito de seus princípios socialistas: “Os povos, as classes, as famílias, os indivíduos poderão enriquecer, mas só serão felizes quando souberem sentar-se, como cavalheiros, em torno da riqueza comum. Inútil buscar muito longe qual é o bem e a felicidade. Eles estão aí, na paz imposta, no trabalho bem ritmado, alternadamente comum e solitário, na riqueza acumulada e depois redistribuída, no respeito mútuo e na generosidade recíproca que a educação ensina”.

Consultas extras:
Marcel Mauss. pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Mauss
Lanna, Marcos. Notas sobre Marcel Mauss e o Ensaio sobre a dádiva. www.scielo.br/scielo.phd
Rehen, Lucas Kastrup. Ensaio sobre a Dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. www.unir.br

terça-feira, 2 de março de 2010

Os Nuer

Resenha: Os Nuer , de E. E. Evans-Pritchard
Por Letícia de Abreu Gomes

Nesta obra clássica, Evans-Pritchard discorre sobre a estrutura e sistemas políticos dos Nuer, sociedade composta por diversas tribos no Sudão, as margens do rio Nilo, na África. Para tal, o autor realizou algumas experiências a campo, segundo ele, somando um total de um ano de convivência íntima com os Nuer, porém, de forma não contínua (entre 1930 e 1936), e sim, interrompidas por conflitos e doenças.
Apesar do contato constante, das trocas culturais e das semelhanças físicas e culturais, e do reconhecimento de uma origem comum, os Nuer vivem em conflitos constante com outra população habitante das margens do Nilo, os Dinkas.
A divisão entre os Nuer se dá a partir de segmentos. Um sistema político englobará todos estes segmentos, ou seja, todos que estiverem em contato, direto ou indireto, apresentando costumes comuns e falando a mesma língua. O maior segmento (seção primária) é a tribo, sendo que eles estão divididos em várias tribos, determinado por uma linhagem, ou seja, uma origem comum. Uma tribo irá se dividir em segmentos territoriais, isto é, divisões geográficas denominadas seções secundárias. Este por sua vez irá se dividir em aldeias, ou seções terciárias. As aldeias são formadas por indivíduos ligados entre si por parentesco, real ou ficcionais (por exemplo, com estrangeiros), ou seja, por laços domésticos. Aliás, a maioria dos laços sociais entre os Nuer se dá a partir dos laços de parentesco.
De acordo com Evans-Pritchard, os Nuer não possuem leis e nem governo. Seu chefe é o “chefe em pele de leopardo”, sendo que este não representa uma autoridade, mas sim, uma entidade sagrada, tendo autoridade somente em momentos rituais, mas isto será retomado mais adiante. O autor caracteriza os Nuer como um povo democrático, mas bastante hostil, que se despertam com bastante facilidade para lutas. Qualquer um que não seja considerado parente é um inimigo em potencial e talvez esta tenha sido uma das maiores dificuldades de aproximação e coleta de dados de Pritchard. Foi necessário ser aceito como parente para adquirir a confiança destes, precisando assim viver como um Nuer, inserido-se totalmente na estrutura deles. Uma de suas estratégias foi adquirir algumas cabeças de gado, sendo que o gado é a base da economia Nuer.
Voltando aos segmentos, quanto menos for um segmento tribal “mais compacto é seu território, mais contíguos estão seus membros, mais variados e íntimos são seus laços sociais genéricos, e mais forte, portanto, é seu sentimento de unidade” (p. 154). Este segmento será cristalizado em torno de uma linhagem do clã dominante da tribo e quanto menor o segmento, mais estreitos serão seus laços genealógicos e maior será a cooperação entre seus membros. Porém, é comum haver oposição entre as partes de um segmento, sendo que os membros de qualquer segmento unem-se em guerra contra segmentos adjacentes. A extensão da guerra irá determinar estas uniões, que são bastante variáveis. Começando com o exemplo de conflito entre duas aldeias. A princípio este conflito será restrito apenas as duas partes envolvidas (A e B). Porém, entendendo-se que uma das partes é mais fraca (A), outra aldeia (C) pode-se unir a A para combater B. contudo, se houver uma guerra territorial entre seções secundárias (X e Y) (que muitas vezes estão denominadas pelas linhagens), A, B, C e todos demais segmentos terciários que compõe cada um dos segmentos secundários irão se unir para a guerra. Ou seja A+B+C = X lutará contra A’+B’+C’ = Y. No entanto, pode também haver conflitos entre seções primárias, ou seja, entre tribos (N e P). Desta forma, Y e X (e os outros segmentos de uma mesma tribo N) irão se unir para combater a tribo P. Todavia, havendo conflito, por exemplo, entre os Nuer e os Dinka, haverá uma união entre as tribos Nuer para combater um inimigo em comum, os Dinka. Ou seja, há uma negociação constante entre aliados e rivais. Cada segmento se vê como uma unidade em uma seção, e estes se vêem como unidade em relação a outra seção, sendo um grupo apenas em oposição a outros grupos. “Daí a divisão e fusão nos grupos políticos serem dois aspectos do mesmo princípio segmentário, e a tribo nuer e suas divisões devem ser entendidas como um equilíbrio entre essas tendências contraditórias, contudo complementares” (p.159). Esta tendência de segmentação é um princípio fundamental da estrutura social dos Nuer e esta possui uma qualidade dinâmica.
Os casos de homicídio são resolvidos através de vendetas, uma forma de instituição tribal, que corresponde a uma pena quando há uma infração às “leis” (aos princípios) tribais e são aplicadas para evitar situações de guerra. Após matar um homem, o assassino busca refúgio na casa do chefe em pele de leopardo. Por um lado, porque precisa ser purificado por este, através do poder ritual, já que acredita que de alguma forma o sangue do morto entra em seu corpo. Por outro lado, para fugir dos familiares do morto, já que, tendo os nuer uma inclinação à luta, os parentes buscarão vingar-se do assassino (podendo estender-se esta ameaça a sua família) e na casa do chefe não pode ser derramado sangue, estando o assassino em lugar seguro. O chefe partirá então para a negociação entre as famílias envolvidas. Primeiro vai até a família do envolvido para ver quanto gado estes estão dispostos a pagar para a família do morto (geralmente algo em torno de 40 a 50 cabeças). Depois de acordado com os primeiro, vai até a família vitimada. Esta custa a aceitar o acordo, preferindo a vingança, porém, depois de muita insistência, ameaças de feitiçarias por parte do chefe, a proposta de reposição do morto com gado é aceita. O chefe em pele de leopardo de maneira alguma representa uma autoridade tribal. Ele é apenas um mediador em conflitos e seu poder se dará a partir de sua capacidade de persuasão. Porém, enquanto a dívida não for totalmente saciada haverá conflito entre estas famílias e algumas vezes mesmo depois, sendo que esta inimizade pode ser estender por até duas gerações, por razões sentimentais. Todo este processo, a negociação, o desejo de vingança, resistir a restituição, ameaças do chefe, acabar aceitando, parecem fazer parte de um jogo necessário a manutenção da estrutura social dos nuer. Esta intervenção do chefe, por vez, se dá geralmente entre segmentos menores, já que a resolução do conflito por lutas resultaria na eliminação destes segmentos. Porém, isto se dá entre conflitos entre aldeias. Em segmentos menores, como dentro de um grupo, estes conflitos tendem a se resolver mais rapidamente, já que a maior proximidade entre os envolvidos e mesmo parentesco e suas relações são mais estreitas. A maioria dos conflitos entre segmentos maiores, são resolvidas através da imposição da força física e da luta entre os envolvidos e aqueles que estão próximos a estes, gerando algumas vezes mesmo a guerra. Pode-se ver assim, que um homicídio não diz respeito somente a quem cometeu, mas a responsabilidade sobre o ato se estende a todos os seus parentes agnatos próximos. Ou seja, a vendeta irá variar de acordo com o tamanho do grupo, do relacionamento entre as pessoas envolvidas e suas posições estruturais. Estes conflitos, contudo podem ser estendidos de forma a fazer com que uma tribo acabe se dividindo em duas. A vendeta então pode se dar a partir de indenização ou de vingança. Mesmo que somente os parentes se envolvam na luta, a hostilidade é estendida ao resto do segmento. Estes conflitos e guerras fazem parte do sistema político, determinando as relações entre as tribos e fornecendo a estrutura tribal um movimento de expansão e contração.
“Em sentido estrito, os Nuer não têm lei. Há ressarcimentos convencionais por danos, adultério, perda de membros,etc., mas não há qualquer autoridade com poder para pronunciar sentenças sobre tais questões ou para fazer cumprir vereditos”(p.173). De acordo com Evans-Pritchard é muito raro um homem obter ressarcimento, a não ser pela aplicação da força. Porém, ele pode desejar a intervenção do chefe em pele de leopardo, como por exemplo, em caso de roubo de uma vaca. Este chefe irá reunir-se com os anciãos das aldeias das duas partes envolvidas. Cada parte irá apresentar seus argumentos, já que os roubos entre os nuer só acontecem quando uma das partes acha que a outra está em divida, então na é efetivamente um roubo e sim, uma forma de conseguir o que lhe é de direito. Após, o chefe e os anciãos reúnem-se para discutir e chegar a um veredicto que será aceito pelas partes. Porém, o chefe não é autoridade, já que é necessário 5 elementos para que o conflito seja resolvido: 1.é necessário que as partes queiram resolver o conflito; 2.a santidade do chefe e de seu papel de mediador, 3.necessidade de haver discussão e concordância entre os anciãos, 4.um homem irá aceitar a decisão sem considerar que está perdendo sua dignidade, 5.o reconhecimento da parte perdedora. Sem isto, a intervenção do chefe não será possível.
O que se pode perceber na lei dos nuer é que ela é relativa, assim como a própria estrutura, mudando de acordo com a posição, a idade e a distância entre os envolvidos. Em teoria, pode-se receber ressarcimento em qualquer caso de infração, mas na prática isso acontece geralmente somente em grupos pequenos e entre parentes. A noção de direito e dignidade está muito presente entre os nuer, sendo que os parentes só apoiaram os conflitos quando acreditam que este tenha direito.
Apesar de não ter governo, há outros homens poderosos entre os nuer, além do chefe em pele de leopardo, que tem poderes sagrados de mediador político na aplicação da vendeta, de cura, purificação e fazer chover. Há os profetas e o Homem do Gado. Este último são descendentes do clã do touro e não tendo função pública, exercem influência direta sobre seu totem, realizando curas sobre o gado. Há outros possuidores totêmicos. Há também mágicos, curandeiros, adivinhos, donos de fetiches, sendo que este último goza de maior prestígio, já que os nuer têm muito medo dos espíritos do fetiche. Os profetas são considerados herdeiros dos filhos do Deus-Céu, sendo possuídos por espíritos desses deuses e realizam profecias e curas. O profeta é uma atribuição recente, sendo que o primeiro morreu em 1906. Porém, o prestígio e o status não dependerá apenas de seus poderes mágicos, mas também da sua condição de ancião (que adquire após casar e ter vários filhos), do número de gados que possui, de seu caráter e habilidade. Pode-se dizer, desta forma que uma aldeia é uma unidade política estrutural, mas sem organização política, na expressão de Evans-Pritchard, os nuer vivem numa “anarquia ordenada”.
Pode-se atribuir a “invenção” dos profetas as investidas contra os dinka e dos conflitos com o governo (árabe-europeu), que prendeu muitos profetas tentando render os nuer.
De uma forma geral, pode-se perceber que, apesar da amplitude do sistema social do nuer, Evans-pritchard tenta desvendar o sistema político destes e a relação de todos os povos nele envolvido, acreditando ser capaz de estudar de forma fragmentada um sistema social.

Para outras informações sobre as situações dos Nuer hoje, pode-se consultar o artigo de Beatriz Perrone Moisé, professora do departamento de antroplogia da USP, intitulado: Conflitos recentes, estruturas persistentes: notícias do Sudão , que está disponível no site www.scielo.br/pdf/ra/v44n2/8834.pdf.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ai, e essa preguiça..........

Hoje de tarde eu to com uma preguiça danada, de tudo (e de manhã não parecia que seria assim)... pior de tudo, cada vez que tenho preguiça, me sinto super culpada, parece que deveria estar fazendo mil coisas... Mas enfim, como disse Mário Quintana (mais uma vez o gênio):

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda".

E por falar em Mário Quintana, quem tiver oportunidade e ver passar por sua cidade, não deixe de assistir o espetáculo "Esconderijos do Tempo", com o grupo Máschara de Cruz Alta-RS. Conta, de forma lírica, a história do anjo-poeta, toda a partir de trechos de seus poemas. As atuações são excelentes, com destaque para Cléber Lorenzoni, que interpreta Mário. Todo o resto do espetáculo também é maravilhoso. Já tive o prazer de assistir duas vezes e confesso, fui levada às lágrimas nas duas apresentações. Então, aí está a dica, "Esconderijos do tempo"; se ouvirem falar, não deixem de assistir.
Saiba mais em: