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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Muito mais que favela

Prezadas (os),

Última quinta-feira, vi uma reportagem na TV a respeito do mapeamento do Complexo do Alemão (na reportagem falaram só deste complexo, mas são de diversas comunidades do RJ), que está sendo realizado por jovens moradores das comunidades. A reportagem disse que a ideia surgiu porque quando digitavam no google maps "complexo do alemão" aparecia só favela, favela, favela... Então, após a pacificação, eles queriam mostrar que eram muito mais do que simplesmente favela, favela, favela... que tinham organização, comércio local etc. Então, com patrocínio de uma empresa de telefone, estão fazendo o mapeamento. Dêem uma olhada. Acredito que é um ótimo exemplo para todas as comunidades. Tomara que se espalhe!!! Tem que clicar em cima de qual comunidade quer e daí entra num mapa aparecendo o que já foi mapeado. Clica em cima do desenho e aparece os detalhes com foto. O link: http://wikimapa.org.br/

E reportagens sobre:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-mapeamento-virtual-do-complexo-do-alemao
http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/noticias/jovens-vao-mapear-comunidade-do-complexo-do-alemao-20110809.html
http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5290478-EI12884,00-Complexo+do+Alemao+tera+mapa+virtual+criado+por+jovens.html

Muito Legal!!!!
Bom início de semana a todos!!!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Quem quiser que conte um conto I: "Para uma avenca partindo"

Para Uma Avenca Partindo
Caio Fernando Abreu




Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver
as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer
atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia
destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Guaramiranga II

Agora, de volta ao calor de Fortaleza... uma síntese do fim de semana acampados em Guaramiranga.
Guaramiranga é uma cidade simpática, beeeem pequena (menos de 5000 hab. segundo o Censo 2010), com um temperatura muito agradável. A propaganda é de Europa cearense, mas não tem nada de européia, e sim, deliciosamente cearense e brasileira. Pena que a grande maioria das coisas são muito caras; pelo porte da cidade e pelas coisas que oferece, o preço fica acima do necessário para maioria das coisas. Outro problema da cidade é que, assim como as outras cidades cearenses que conhecemos até o momento, vemos lixo pro todo canto.
Uma coisa que apreciamos bastante foi o Arraial da cidade, muito bonito, as atrações muito legais, música boa que só, quadrilhas muito bonitas. Inclusive, nós dançamos na quadrilha improvisada.. e olha que é difícil o Iuri aceitar cair na dança.
Sobre o trânsito do Ceará, que é uma coisa caótica e sem lei, duas coisas: no interior, usar capacete nas motos deve ser crime... de cada 100 motos (sim, elas invadem) 1, no máximo tem alguém com capacete. Nenhuma fiscalização. Três pessoas, quatro numa moto, menores de idade dirigindo e levando outros menores. Algo quase sem explicação, é inflação que não acaba mais. As pessoas colocam suas vidas e a dos outros em risco, andando em suas motos pra lá e pra cá alegremente. Vimos isso em Guaramiranga e em Pacoti, quando passamos. Inclusive os moto-táxis. Quando os poucos que usam capacete passavam era capecete para o mototaxista, mas o passageiro (pagante!!!) não tinha direito ao acessório. Show de absurdos. Outra infração são os ônibus: ônibus intermunicipal, tanto de ida quando de volta, lotado, com mais de 30 pessoas em pé no corredor. Imagine, uma viagem de mais de 120 km com um monte de gente em pé no corredor. Fazer o que, se na cidade de Guaramiranga o transporte público ainda é o pau-de-arara.
Enfim, é tudo que tenho a dizer. Os dois dias em Guaramiranga foram muito gostosos. As viagens de ida e volta pela Fretcar... melhor nem comentar. Mas infelizmente, foi a única opção que encontramos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Arte, Lazer, Comida... Fortaleza

Por mais ótimas que sejam as praias de águas mornas de Fortaleza, a cidade é muito mais... Povo simpático esses cearenses... A maioria bem disposto a informar e ajudar. E tem o Mercado Central, paraíso do artesanato, milhões de coisas lindas por todo o lado, tudo de bom (compulsivos: visitem com pouco dinheiro ou não visitem; ou gastem mesmo). O Centro Cultural Dragão do Mar, arte e cultura o tempo todo (tem vários outros centros culturais, mas até agora só fomos nesses). Em menos de uma semana em Fortaleza já assistimos dois espetáculos teatrais no Dragão do Mar, ambos excelentes, O Pagador de Promessa e Mixórdia, a meros 2 reais de entrada cada. E o legal é que é a noite e o teatro, que é bem grandinho, enche, e principalmente, de jovens. Então, quem vem falar que nordestino é sem cultura, esses abusos que a gente ouve, vem cá ver e conhecer antes de falar absurdo sobre esse povo de cá. E claro, viver tomando água de côco e comendo camarão num preço que só aqui tem não anda nos fazendo mal nenhum... quando dá, um banho de mar, como hoje no fim da tarde, depois de um dia cansativo... banho de mar e teatro... quando não dá, quando se chega tarde, é caminhada no calçadão beira mar e água de coco pra encerrar a noite... é no fim das contas, não é tão difícil se adaptar... ehehehe

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Viagem ao Uruguai

Texto mais antiguinho (diário de bordo, ehehehe) que resolvi resgatar...


VIAGEM AO URUGUAY

Este texto ou crônica procurará relatar uma parte de minhas aventuras, reflexões, observações desta minha primeira viagem internacional, ao nosso país vizinho e “hermano” Uruguai, principalmente à cidade de Montevidéu, capital do país, em 2005, quando participei de um congresso de Antropologia. Será dividido em quatro partes, a primeira e a segunda falando sobre Montevidéu, a terceira sobre algumas reflexões sobre o que vi na viagem e por fim, sobre momentos cômicos da viagem e outras coisas bem pessoais. A quem tiver interesse de ler, boa leitura e CONHEÇAM MONTEVIDÉU.


Parte 1: As belezas de Montevidéu

Montevidéu é uma cidade grande, agitada, movimentada como costumam ser cidades deste porte. Fez lembrar muito a capital gaúcha, Porto Alegre. De dia um corre-corre, muito comércio. À noite a “Ciudad Vieja” muito movimentada com “pubs”, barzinhos e muita, muita gente procurando cerveja e diversão. Lembra muito a “Cidade Baixa” de POA. Outra semelhança é que a cidade porta prédios muito antigos. E isso também lembra nossa capital. Porém, Montevidéu comporta mais prédios antigos, mais conservados. Estes prédios chamam muita atenção, sendo realmente atração turística na cidade. Há também, um pedaço da muralha que cercava a cidade logo quando ela foi construída, e na Praça Independência, há o Portal que era a porta de entrada da cidade. E há também muitas praças, com estátuas e chafarizes e muito bem cuidadas também. E a “Cidade Velha” é cercada pelo Porto (el puerto) o que dá uma beleza única ao lugar. Há muitos lugares que resultam em belas imagens fotográficas.
Montevidéu nos dá um exemplo em conservação não apenas em relação às praças e prédios, mas também a natureza. É uma cidade muito arborizada, sendo que, todas as ruas do centro, menos algumas muito movimentadas e com muito comércio, tem as calçadas cobertas de árvores, formando belos túneis verdes. Outra coisa admirável é o potencial artístico da cidade. Teatro, música, dança, artes plásticas, tudo ao ar livre, ampliando o acesso ao patrimônio artístico para todos, indiferente de classes sociais. E muitas dessas atividades artísticas, praticadas em calçadas e praças, eram exercidas por jovens e crianças (como grupos de danças de escolas).
Um exemplo que o Uruguai nos dá é o desconto nas passagens intermunicipais, de 20% para estudantes e 50% para idosos, incentivando assim o turismo dentro do país. Eu e o Guilherme (para quem não conhece, foi meu companheiro de viajem e amigo há alguns anos) conseguimos este desconto viajando de Rivera para Montevidéu, mas não na volta, porque ele é oferecido apenas para estudantes uruguaios. Mas é um desconto que seria muito bem vindo aqui no Brasil. O governo bem que poderia negociar com as empresas de ônibus, ainda mais aqui, que as passagens são tão caras. Nós, estudantes universitários que moramos longe de casa, poderíamos, ao menos, visitar mais vezes nossas famílias.
Uma coisa que chama atenção à parte é a beleza dos homens Uruguaios (confesso que nas mulheres não prestei atenção). Os homens morenos com olhos esverdeados (e de outros tipos também) são por si só uma atração turística. Às vezes andava na rua muito distraída (já sou distraída naturalmente), não sabia para que lado olhar. Por causa disso, quase fui atropelada (algumas vezes). Estes homens tipo Gael García Bernal mexem com a cabeça e as fantasias de qualquer mulher (ou gay)...
Mas já pulando para outro assunto, em Montevidéu, outra atração são as “feirinhas”. A feirinha da “Ciudad Vieja”, vende antiguidades e artesanatos (lembra muito o Brique da Redenção, POA). Porém aí, as coisas são um pouco caras, mas é uma feira de antiguidades (coisas raras, até) ao ar livre. Porém, o que realmente chama a atenção é a feira dominical da Calle Tristan Navajo. É uma feira de quadras e quadras, ao longo de toda a rua e ocupando mais algumas que cruzam pela Tristan Navajo (algo realmente muito grande). Esta feira, visitada por diversas pessoas (mas, tive a impressão, principalmente por classes populares e turistas) vende de tudo que se possa imaginar. Roupas (novas e usadas), calçados, animais de estimação, galinhas vivas ou mortas, flores, antiguidades, artesanatos (de todos os tipos), verduras, ervas, flores, discos (vinil), cd’s, fitas de vídeo cassete, produtos de limpeza e de supermercado (massa, arroz, papel higiênico, sabonete), enfim, uma verdadeira miscelânea, uma variedade sem fim... “Se precisar de alguma coisa vai lá no meu armazém, lá tem de tudo quase tudo tem”... e os preços também são bem variados. É uma atração e também um lugar excelente para compras (eu não pude comprar nada pois aí meu dinheiro já tinha acabado).
Enfim, das coisas belas, turísticas e divertidas de Montevidéu, acho que é isso. Claro, olhando, há sempre mais e cada um tem uma capacidade investigativa para descobrir algo novo na cidade. Agora, vem o que não gostei...


Parte 2: Não existe o paraíso...

A comida em Montevidéu está longe de ser uma culinária deliciosa. Os restaurantes são marcados por fast-foods, como hambúrgueres e, principalmente, pizza. Os uruguaios devem ser maníacos por pizza, pois quase todos os restaurantes são pizzarias. E as pizzas são sempre quadradas. E mais, os preços variam de acordo com o recheio. Em Rivera, por exemplo, a mais barata era só a massa e o molho (só mesmo). Alguém já tinha ouvido falar em pizza sem queijo? Não existe comida em buffet como no Brasil, apenas lanches, e a comida mesmo é servida apenas em combinações não muito variadas, mas em quantidade exagerada. E, apesar de não poder ser considerada cara, a comida também não é das mais baratas. Bem, o preço é razoável, já a qualidade... cheguei no Brasil louca por uma salada! Apenas alguns dias no Uruguai são suficientes para engordar, com tanta gordura e comida pesada. Não sei como este país não tem uma população obesa... eles devem fazer algum tipo de exercício ou ter alguma “adaptação digestora” de gordura no estômago.
Outra coisa louca é o trânsito. Os motoristas parecem meio estressados. Ficam buzinando e reclamando, mesmo quando o carro que está a sua frente não pode andar mais rápido. Acho que pode ser por causa dessa má educação dos motoristas, que em Montevidéu há sinaleiras para motoristas, mas há também as sinaleiras para os pedestres. O que é meio complicado para os brasileiros, acostumados a atravessar a rua em qualquer lugar, mal olhando para os lados. Acho que os brasileiros correm mais riscos de atropelamento nesta cidade. Demoramos a aprender a olhar a sinaleira de pedestres (se é que aprendemos!).



Parte 3: Um país deserto e a pobreza escondida

Cidade turística, Montevidéu se apresenta muito bela e uma cidade rica ao primeiro olhar do visitante. Claro, vê-se alguns pedintes pelas ruas, mas nada que pareça alarmante. Porém, ao circular pela cidade, pode-se ver dois focos de pobreza gritante. Um deles, é logo ao entrar na cidade. Quando se chega de dia e se presta atenção, pode-se ver que a entrada da cidade é cercada por uma espécie de favela, pelo meio da qual percorre um córrego (mais precisamente, um grande esgoto), mal cheiroso. É nessa favela que a cidade esconde alguns de seus pobres aos olhos do turista.
Outro foco de pobreza é o Porto. Nele, e nas encostas de seus prédios e calçadas, encontram-se muitos mendigos dormindo ou conversando, bebendo, enfim, vivendo na rua, tendo ali a sua casa. Mais um ambiente hostil e escondido da beleza da cidade.
Montevidéu, de acordo com o Guilherme, concentra quase metade da população Uruguaia (e claro, onde a população aumenta, aumenta também a desigualdade). De Rivera a Montevidéu, cruza-se o país. E não há cidades. Apenas uma cidade e pequenos povoados. Mas mais de 80% do caminho, digamos, é coberto por campos e mais campos cercados (de acordo com o Guilherme, muitos desses campos pertencem a brasileiros, porque no Uruguai a terra é barata). O Uruguai assim parece um país deserto. E é revoltante porque a maioria destas terras possui apenas uma cerca. Não há plantações, e às vezes, há meia dúzia de gado pastando. Mas são terras e mais terras vazias, protegidas pelo símbolo da propriedade privada. E a América Latina padecendo na pobreza. Colonos sem terra, mendigos sem ter para onde ir, gente sem ter o que fazer para se sustentar, as cidades superlotadas e um país deserto, não cultivado, cercado por proprietários, interessados apenas em acumular terras. Este exagero de campos vazios (porém, um pouco, mas não muito, mais cultivados) pude ver no Brasil, entre Santa Maria e Santana do Livramento. Estes campos fizeram com que eu refletisse mais uma vez da necessidade, e até mesmo da urgência, de uma reforma agrária e também de uma reforma social, pois não adianta dar terra para quem não sabe plantar, ou não dar os insumos, não dar educação e saúde. É necessário um (re) planejamento, uma (re) ocupação, uma (re) distribuição do espaço, tanto urbano quanto rural.
É sempre importante, quando viajamos, não guardar apenas o belo. Devemos refletir sobre os problemas de cada local, comparar com tudo que conhecemos, pensar se há solução... sei lá, não podemos ficar parados. Mesmo quando, ativamente, não podemos fazer nada, devemos pensar os problemas, ter consciência que o mundo não é feito apenas de belas fotografias.


Parte 4: Contando ninguém acredita...

Esta, acredito eu, seja a parte mais engraçada da história. É onde relato coisas que aconteceram comigo. Coisas inusitadas, coisas que deram errado... enfim, todas aquelas coisas que a gente ri muito. Que, se não dá para rir na hora, a gente acaba rindo muito depois. Mas vamos pela ordem dos fatos.
Para começar, uma viagem num ônibus pinga-pinga de Santa Maria à Livramento, com direito a muitas pessoas em pé e criança vomitando perto de nós. O banheiro parecia uma sauna. E o dia estava muito quente.
Chegando em Livramento, as casas de câmbios fechadas e nós só com reais. Mas avistamos uma aberta e fomos logo trocar nosso dinheiro. Chegamos em Livramento seis e pouco da tarde. Nosso ônibus para Montevidéu era só a meia noite e meia. Tínhamos muito para esperar e tínhamos que gastar o menos possível. Eu estava com pouco dinheiro. Pretendia pegar mais em Montevidéu. Imaginei que lá teria Banco do Brasil.
Primeiro, fomos a uma fiambreria, compramos umas rodelas de salame e sentamos na praça internacional para comer. Nem sei porque, mas as pessoas nos olhavam com estranheza. Talvez não seja muito comum duas pessoas sentadas na praça comendo rodelas de salame no cair da noite. Depois, resolvemos caminhar um pouco mais: os free-shoppings estavam todos fechando. Sentamos numa confeitaria / lancheria para tomar uma cerveja (Norteña, recomendo!) de litro que teve que durar muito tempo... depois pedimos uma pizza (foi aí que soubemos que a pizza comum era só a massa e o molho). Pedimos uma um pouco mais incrementada e dividimos. Ficamos nos enrolando esperando o tempo passar. E não passava. Começamos a contar nosso dinheiro para pagar a conta, tentando juntar o que tínhamos em reais, inclusive as moedinhas. Acredito que foram as moedinhas que chamaram a atenção de um senhor que estava ao nosso lado, Eugênio, nosso anjo da guarda naquele dia. Ele se levantou, venho até nós e nos deu 20 reais para pagarmos a conta. Disse que era de Santa Maria e viu que nós éramos estudantes de lá (graças à camiseta do Gui) e que sabia como a vida de estudante era difícil, etc. Só felicidades! Bem, fomos sentar com o senhor Eugênio. Ele nos pagou várias cervejas e quando o Guilherme ia pagar nossa conta com os 20 reais, ele disse que era para a gente guardar o dinheiro, que ele ia pagar tudo. E mais, disse que se quiséssemos pedir mais alguma coisa para comer, podíamos ficar a vontade. Resolvemos não abusar da sorte. De qualquer forma, ele nos pagou a pizza, as cervejas e ainda nos deu 20 reais. Nos despedimos e fomos para a rodoviária, ainda meio sem acreditar.
Bem, os bancos de nosso ônibus pareciam camas e ainda havíamos conseguido o desconto de 20%. Tudo perfeito! Alguma coisa teria que dar errado.
Em Montevidéu fomos procurar um hotel barato que o motorista do ônibus nos havia indicado. Mas estava lotado. Caminhamos quadras e mais quadras e eu cheia de malas, atrás de um hotel. E nada. Resolvemos então seguir em direção ao evento. Foi quando maravilhosamente e muito cansados avistamos um hotel. Incrível, bom, barato e bem localizado. Hotel Platino (Calle Mercedez, próximo a Magallanes, se um dia alguém precisar). Deixamos as malas no hotel ,só poderíamos entrar as 10 e a recém eram 7 horas. Nem é preciso dizer que estávamos fedendo. Estava muito quente. Caminhamos muito e com malas e estávamos a mais de um dia sem banho. Eu evitava ficar muito próxima às outras pessoas.
Bem, meio dia fui procurar o tal Banco do Brasil e advinha... não havia agências no Uruguai inteiro e para ajudar, descobri que meu cartão bancário só funcionava no Brasil, ou seja, não podia sacar dinheiro em bancos internacionais. Eu estava f... Bem, tive que ir numa casa de câmbio e trocar o dinheiro que havia guardado para voltar para Santa Maria (ainda bem que a passagem para Rivera, de volta, já estava comprada). Pensei: quando chegar em Livramento pego mais dinheiro. E aí tive que começar o racionamento. Já separei o dinheiro do hotel. Comia os lanches mais baratos (tinha um trailler que nas hamburguesas, vinha até couve-flor dentro, e o tio que fazia era tão relaxado que não usava luvas e sujou meu troco com maionese. Era tudo com a mão. Bem, este foi o último dia que comi ali), nunca pedia algo para beber. Bebia só água, que era de graça na RAM (reunião de antropologia do mercosul) e no hotel.
Às noites, não saia. Por três motivos: o pessoal de Santa Maria estava em outro hotel e como os celulares não funcionavam, não podíamos nos comunicar e se encontrar; outro é que como muitos de vocês sabem, não saía com o Guilherme porque temos, digamos, gostos diferentes e também porque eu não tinha dinheiro mesmo. Ou saía ou comia. Poxa, mas minhas noites foram bem divertidas. Caminhava, comia um lanche ou bolachinhas (uns biscoitos tipo oriental muito bons e bem baratos) e ficava no hotel olhando Pernalonga, Patolino, Tom e Jerry em espanhol. Não entendia muito, mas já conhecia os desenhos (olhando desde de criança, né). Também alguns desenhos novos que eu ficava tentando entender. E alguns filmes. Olhei de novo “Quatro Casamentos e um Funeral”, com legenda em espanhol (mas lendo eu consigo entender). Lindo este filme. É aquela coisa de nunca desista, de destino, das loucuras e confusões do amor... sei lá. Comédia romântica para alguns pode parecer banal ou tudo igual, mas eu adoro. Faz a gente sonhar. Por que não? Quem disse que a gente nunca pode encontrar esse tipo de amor? Eu já não acreditava, mas mudei de idéia. Resolvi que não vou desistir de tentar amar e o destino é tão surpreendente... Mas isso são coisas que não interessam, pelo menos não aqui.
Na sexta-feira, último dia da RAM, na festa de encerramento. Bem, estava muito divertido. Bebi quatro doses de “grapa com miel” que me deixaram bem tonta. O pessoal de Santa Maria foi embora e o Gui foi pra outro lugar. Fiquei lá, na festa, totalmente sozinha. E meio bêbada. Foi então que fiz amizade com duas meninas muito queridas, muito legais. Ana, de Montevidéu mesmo e Karina, da Argentina. Bebemos cerveja e fomos para um bar da Ciudad Vieja. Bem, até então tinha evitado o portunhol, mas como eu já estava meio alta, falei com elas só em portunhol, misturando um pouco de francês e inglês (strawberry). Não sei se estava me fazendo entender, mas a noite foi muito divertida. Esse é o bom de beber. Eu sou muito tímida, mas graças à “grapa com miel”, fiz duas novas amigas. Trocamos e-mails, claro.
O resto do fim de semana foi divertido. Sábado foi o dia para conhecer a cidade e tirar fotos. E neste dia comi um pouco mais e comprei uns postais. Resultado disso foi que me sobrou bem pouco para almoçar domingo. Mas tudo bem, eu e o Gui trocamos nossas passagens para meio dia de domingo (íamos ir à noite), então era só o almoço. Em Livramento eu teria dinheiro.
Domingo de manhã fomos na feirinha da Calle Tristan Navajo, da qual já falei. Resolvi comer o tal de “Pancho largo”, achando que era tipo um cachorro quente. Esse é outro problema em país estrangeiro. A gente não sabe o que significa as coisas (eu deixei de comer “chivitos”, “pollo” por não saber que era tipo xis e frango, respectivamente) e o pior é que tive azar porque nos restaurantes ou traillers onde fui, as pessoas que atendiam não tinham paciência para explicar e ainda ficavam bravos quando a gente não entendia. Então, deu no que deu. Mas voltando ao “Pancho largo”. Pedi um Pancho e a mulher me entregou um pão mínima coisa maior que uma bisnaga “Seven Boys”, com uma salsinha enorme no meio, com ketchup, mostarda e maionese. Nem um molhinho. Resultado: tive que comer dois (e ainda assim fiquei com fome). E o pior é que os dois saíram mais caro que um “chivitos” ou uma “hamburguesa”. Mas...
Na viagem de volta, um ônibus lindo, o super cama. No meio da viagem nos foi dado um alfajor e um copinho de coca-cola, o que pra mim foi um paraíso. Passou um filme chileno, chamado “Machuca”. Eu não entendia muito o que eles diziam (claro, era em espanhol e não tinha legendas), mas era sobre dois meninos, um rico e um pobre (o Machuca) e mais uma menina pobre e eles eram amigos. Mostrava toda a questão da pobreza, a luta entre nacionalistas e comunistas e a terrível ditadura chilena. Quero olhar de novo, com legendas. Parecia muito bom.
Enfim, chegamos a Rivera, pegamos um táxi (táxi no Uruguai é muito barato), fomos até a imigração, depois a ao terminal bancário em Livramento. Não estava funcionando. Fomos até a agência central (isso era domingo) e também não estava funcionando. Encontramos duas moças que disseram que não havia nenhum banco funcionando e que os telefones também não. A cidade estava em pane. E eu também. Não tinha dinheiro para passagem e nem para comer. E o pior é que o Gui só tinha dinheiro para uma passagem e mais alguns trocados. Ficamos sentados dentro do banco esperando que voltasse a funcionar e nada. Acabou que tive que ficar em Livramento, num hotel, comer na rodoviária (que era perto do hotel) e mandar para minha conta. O Gui veio embora para Santa Maria no ônibus da meia noite. Eu tive que ficar até segunda, quando os bancos voltaram a funcionar e pude finalmente retirar dinheiro, comprar passagem, pagar o hotel, a janta e o almoço de segunda. Peguei o ônibus meio dia e meia, um ônibus desconfortável e quente (e ainda tinha uma criança que volta e meia começava a chorar, sentada dois bancos a minha frente), mas finalmente cheguei em Santa Maria, lá pelas cinco e pouco da tarde. E ainda fui na aula à noite. Mas foi tudo muito bom, de qualquer forma. Uma experiência que valeu a pena. E é errando que se aprende, não é? Nunca mais viajo sem uma quantia mínima de dinheiro e nunca mais como algo sem ter certeza do que é.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Galeano

Pouco comento aqui, mas Eduardo Galeano é um de meus escritores favoritos... O cunho cotidiano e político, além de poético, de suas narrativas, crônicas, pensamentos e observações realçam nossa luta e fé no mundo.

A indicação de hoje é "O Livro dos Abraços". Ele está disponível em PDF na internet (api.ning.com/files/.../livrodosabraos.pdf), mas pra quem, assim como eu, curte ter o livro em mãos, em papel, pra poder manipular, assinalar, carregar, recomendo a compra, até por não ser um livro caro.

Alguns trechos:

A arte das crianças
Mario Montenegro canta os contos que seus filhos lhe contam. Ele senta
no chão, com seu violão, rodeado por um círculo de filhos, e essas crianças ou
coelhos contam para ele a história dos setenta e oito coelhos que subiram um em
cima do outro para poder beijar a girafa, ou contam a história do coelho azul que
estava sozinho no meio do céu: uma estrela levou o coelho azul para passear pelo
céu, e visitaram a lua, que é um grande país branco e redondo e todo cheio de
buracos, e andaram girando pelo espaço, e saltaram sobre as nuvens de algodão, e
depois a estrela se cansou e voltou para o país das estrelas, e o coelho voltou para o
país dos coelhos, e lá comeu milho e cagou e foi dormir e sonhou que era um coelho
azul que estava sozinho no meio do céu.

Os sonhos esquecidos
Helena sonhou que deixava os sonhos esquecidos numa ilha. Claribel
Alegria recolhia os sonhos, os amarrava com uma fita e os guardava bem
guardados. Mas as crianças da casa descobriam o esconderijo e queriam vestir os
sonhos de Helena, e Claribel, zangada, dizia a eles:
— Nisso ninguém mexe.
Então Claribel telefonava para Helena e perguntava:
— O que eu faço com seus sonhos?

A burocracia/3
Sixto Martínez fez o serviço militar num quartel de Sevilha. No meio do
pátio desse quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado
montava guarda. Ninguém sabia porque se montava guarda para o banquinho. A
guarda era feita por que sim, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de
geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam.
Ninguém nunca questionou, ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre
tinha sido feito.
E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou
coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E
depois de muito cavoucar, soube-se. Fazia trinta e um anos, dois meses e quatro
dias, que um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que fora
recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.

Causos/2
Nos antigamentes, dom Verídico semeou casas e gentes em volta do
botequim El Resorte, para que o botequim não se sentisse sozinho. Este causo
aconteceu, dizem por aí, no povoado por ele nascido.
E dizem por aí que ali havia um tesouro, escondido na casa de um
velhinho todo mequetrefi.
Uma vez por mês, o velhinho, que estava nas últimas, se levantava da
cama e ia receber a pensão.
Aproveitando a ausência, alguns ladrões, vindos de Montevidéu,
invadiram a casa.
Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa
que encontraram foi um baú de madeira, coberto de trapos, num canto do porão. O
tremendo cadeado que o defendia resistiu, invicto, ao ataque das gazuas.
E assim, levaram o baú. Quando finalmente conseguiram abri-lo, já longe
dali, descobriram que o baú estava cheio de cartas. Eram as cartas de amor que o
velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.
Os ladrões iam queimar as cartas. Discutiram. Finalmente, decidiram
devolvê-las. Uma por uma. Uma por semana.
Desde então, ao meio-dia de cada segunda-feira, o velhinho se sentava no
alto da colina. E lá esperava que aparecesse o carteiro no caminho. Mal via o
cavalo, gordo de alforjes, entre as árvores, o velhinho desandava a correr. O
carteiro, que já sabia, trazia sua carta nas mãos.
E até São Pedro escutava as batidas daquele coração enlouquecido de
alegria por receber palavras de mulher.

Noite de Natal
Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do
Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes esposavam e os fogos de
artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa,
esperavam por ele para festejar.
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e
estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e
descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o.
Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela
morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: — Diga para... —
sussurrou o menino —. Diga para alguém que eu estou aqui.

Os ninguéns
As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a
pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte
a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca,
nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e
mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o
ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e
mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais
da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Anúncios
Vende-se: — Uma negra meio boçal, da nação cabinda, pela quantidade
de 430 pesos. Tem rudímentos de costurar e passar.
— Sanguessugas recém-chegadas da Europa, da melhor qualidade, por
quatro, cinco e seis vinténs uma.
— Um carro, por quinhentos patacões, ou troca-se por negra.
— Uma negra, de idade de treze a quatorze anos, sem vícios, de nação
bangala.
— Um mulatinho de idade onze anos, com rudímentos de alfaiate.
— Essência de salsaparrilha, a dois pesos o frasquinho.
— Uma primeiriça com poucos dias de parida. Não tem cria, mas tem
abundante leite bom.
— Um leão, manso feito um cão, que come de tudo, e também uma cômoda
e uma caixa de embuia.
— Uma criada sem vícios nem doenças, de nação conga, de idade de uns
dezoito anos, e além disso um piano e outros móveis a preços cômodos.
(Dos jornais uruguaios de 1840, vinte e sete anos depois da abolição da escravatura.)

Teologia/2
O deus dos cristãos, Deus da minha infância, não faz amor. Talvez o
único deus que nunca fez amor, entre todos os deuses de todas as religiões da
história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por
ter sido meu super-pai castigador, chefe de polícia do universo, e penso que afinal
Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e
acreditava que Ele acreditava em mim. Então preparo a orelha,, na hora dos
rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer subir da noite, e acho que escuto
suas melancólicas confidencias.

O diagnóstico e a terapêutica
O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos,
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por
descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção
capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis
beberagens com garantia e tudo.

A cultura do terror/3
Sobre uma menina exemplar: Uma menina brinca com duas bonecas e
briga com elas para que fíquem quietas. Ela também parece uma boneca porque é
linda e boazinha e porque não incomoda ninguém.
(Do livro Adelante, de J. H. Figueira, que foi livro escolar nas escolas do Uruguai até
poucos anos atrás).

A cultura do terror/6
Pedro Algorta, advogado, mostrou-me o gordo expediente do assassinato
de duas mulheres. O crime duplo tinha sido à faca, no final de 1982, num subúrbio
de Montevidéu.
A acusada, Alma Di Agosto, tinha confessado. Estava presa fazia mais de
um ano; e parecia condenada a apodrecer no cárcere o resto da vida.
Seguindo o costume, os policiais tinham violado e torturado a mulher.
Depois de um mês de contínuas surras, tinham arrancado de Alma várias
confissões. As confissões não eram muito parecidas entre si, como se ela tivesse
cometido o mesmo assassinato de maneiras muito diferentes. Em cada confissão
havia personagens diferentes, pitorescos fantasmas sem nome ou domicílio, porque
a máquina de dar choques converte qualquer um em fecundo romancista; e em
todos os casos a autora demonstrava ter a agilidade de uma atleta olímpica, os
músculos de uma forçuda de parque de diversões e a destreza de uma matadora
profissional. Mas o que mais surpreendia era a riqueza de detalhes: em cada
confissão, a acusada descrevia com precisão milimétrica roupas, gestos, cenários,
situações, objetos...
Alma Di Agosto era cega.
Seus vizinhos, que a conheciam e gostavam dela, estavam convencidos
de que ela era culpada*.
— Por quê? — perguntou o advogado.
— Porque os jornais dizem.
— Mas os jornais mentem — disse o advogado.
— Mas o rádio também diz— explicaram os vizinhos —. E até a televisão.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Censo 2010: Sou negro e sou de Axé!


No próximo mês de agosto, a população brasileira dos 5.565 municípios estará recebendo recenseadores e recenseadoras para o levantamento demográfico que desde o primeiro censo, em 1872, com 643(1) municípios, se mostrou como importante fonte de dados.

Sabemos do valor das informações coletadas para acompanhar o crescimento, a distribuição geográfica e a evolução das características da população e como elementos importantes para definição de políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal, bem como para a tomada de decisões na iniciativa privada, incluindo, atualmente (para algumas), as ações de responsabilidade social.

Foi no censo de 1872 que, pela primeira vez, o conjunto da população era compreendido oficialmente em termos raciais, base para o estabelecimento de novas diferenças entre os grupos sociais. Diferenças ainda longe das concepções hierarquizantes e poligenistas que se acercariam da noção de raça, anos mais tarde.

Naquele momento, tratava-se de conhecer uma população de ex-escravizados que começava a exceder cada vez mais o número dos ainda escravizados. E esta diferença era possível na medida em que a instituição escravista tinha perdido a legitimidade devido à ação de grupos abolicionistas ou mesmo por meio das consequências da abolição do tráfico (1850) ou das leis posteriores que prometiam, apesar de gradual, a abolição da escravidão: a lei do ventre livre (1871), depois a lei dos sexagenários (1885), seguida da proibição dos açoites (1886) (2).

É muito importante anotar que a noção de “cor”, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matrizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição social estavam indissociavelmente ligadas. (3)

O novo Movimento Negro, surgido nos anos 1970, enfrentou a falácia da “democracia racial” entendendo que a o quesito “cor” era determinante do lugar social da população negra. Esse conhecimento, sustentado por militantes e pensadores na área das ciências humanas e sociais (incluindo a economia e a estatística), levou a uma campanha, em nível nacional, para o censo de 1991: “Não deixe sua cor passar em branco”.

Se fizermos uma breve retrospectiva do quesito “raça” / “cor” nos censos do País, não é difícil compreender a necessidade dessa campanha por parte do Movimento Negro:

1 - o quesito “raça” foi pesquisado nos censos de 1872 e de 1890;
2 - foi suprimido em 1900 e 1920;
3 - o quesito retorna em 1940, sob o rótulo de “cor”;
4 - em 1970, o questionário não contemplou o quesito “cor”;
5 - em 1980, o quesito volta a aparecer;
6 - em 1991 o quesito “cor” está presente, incorporando a (nova) categoria “indígenas e amarelos”;
7 - o censo de 2000 admitiu “raça e cor” como sinônimos, compondo uma única categoria (“cor ou raça”). (4)


A força da campanha do Movimento Negro tinha ainda maior razão! Além da invisibilidade da população negra, pela falácia da “democracia racial”, o quesito “cor”, respondido apenas no Questionário Amostra, tangenciava uma população já impregnada pelo não lugar do ser negro, colocado sempre no lugar de 2ª classe!

“Não deixe sua cor passar em branco!” cobriu o censo de 1991 e foi reprisada no censo de 2000, com o objetivo de sensibilizar os negros e seus descendentes para assumirem sua identidade histórica insistentemente negada; ao mesmo tempo em que era um alerta para a manipulação da identidade étnico-racial dos negros brasileiros em virtude de uma miscigenação que se constitui num instrumento eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição de uma hierarquia cromática e de fenótipos que têm na base o negro retinto e no topo o ‘‘branco da terra'', oferecendo aos intermediários o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, o branco. (5)

Apesar de, neste novo censo de 2010, o quesito “cor ou raça” sair do Questionário da Amostra e passar a ser investigado também no Questionário Básico, cobrindo toda a população recenseada (6), ainda há um longo caminho da superação do racismo para que todos e todas respondam pela dignidade e pelo reforço da auto-estima de pertencerem a um grupo étnico que só tem feito contribuir eficiente e eficazmente para o desenvolvimento do País.

Ao contrário do que propõe as “assertivas” de exclusão, a identificação da população negra se faz necessária sempre e a cada vez para que se constate em números (como gosta o parâmetro científico) o racismo histórico que ainda está perpetrado sobre a população negra. Só depois que alcançarmos a liberdade de fato é que as anotações étnicas passarão a ser fatores que dizem respeito exclusivamente à cultura. Enquanto estivermos, como estamos hoje – após 122 anos da abolição da escravatura – vivendo uma abolição não conclusa, precisaremos reafirmar nossa etnia do ponto de vista político; econômico; habitacional; na área da saúde; na área da educação; nas condições de supressão da liberdade que não se dá apenas aos presidiários, mas a pais e mães que clamam por políticas para garantir que seus filhos e filhas possam crescer com dignidade e sem ameaças.

A proposta do IBGE de tirar a “fotografia” mais nítida o possível do Brasil, ainda está longe de ser alcançada!

E a luta do povo negro não termina! O racismo é tão implacável que, a cada etapa alcançada, um novo desafio se apresenta!

Para este ano, novamente o Movimento Negro está em campanha, em nível nacional! E, agora, é para que todos aqueles que são adeptos das Religiões de Matrizes Africanas respondam sem qualquer dissimulação: “Quem é de Axé diz que é!” (**)

O quesito “religião ou culto” continua no Questionário de Amostra e tem campo aberto para que o recenseador ou a recenseadora anote a “religião ou culto” declarado pelo cidadão, pela cidadã.

Tanto no quesito “cor ou raça” para todos (no Questionário Básico); quanto no quesito “religião ou culto” para alguns que responderão o Questionário Amostra, a população negra e seus descendentes estão conscientes de que suas palavras precisam ser firmes e que devem estar atentos para que a anotação seja feita sem qualquer margem de erro em relação ao que declarou.


Já se justificou essa omissão do quesito “cor” por um possível empenho do regime republicano brasileiro em apagar a memória da escravidão. Entretanto, parte da explicação pode vir do incômodo causado pela constatação de que nossa população era marcada e crescentemente mestiça, enquanto as teses explicativas do Brasil apontavam para os limites que essa realidade colocava à realização de um ideal de civilização e progresso. (7)

Não temos qualquer dúvida de que a resistência em tratar de raça-cor e em tudo o que a discussão implica – como políticas de reparações, com fundo para superação do racismo histórico – é a mesma que teremos de enfrentar no tratamento das Religiões de Matrizes Africanas. Não dissimular a declaração de adepto ou adepta das religiões de Axé, trazidas e preservadas como memória ancestral por aqueles e aquelas que resistiram à travessia e morte nos porões dos navios tumbeiros é dignificar a humanidade que por princípio e necessidade é diversa e assim deve permanecer.

A poligenia está superada! As evidências de que a humanidade surgiu no continente africano são cada vez em maior número e com rigor científico sempre mais acurado. O conceito de raça não tem o menor sentido, dizem nossos opositores, no afã de jamais ceder o lugar histórico de conforto a que estão acostumados! Enquanto não repararmos o estrago que o uso histórico do conceito fez a cidadãos e cidadãs que hoje são em mais de 50% da população, qualquer discussão conceitual será apenas a má retórica que tenta persuadir para continuar reinando.

Por isso,
Não vamos deixar nossa cor passar em branco!
E vamos dizer que somos de Axé!
“Quem é de Axé diz que é!”
_______
(1) REIS, Eustáquio; PIMENTEL, Márcia; ALVARENGA, Ana Isabel, Áreas mínimas comparáveis para os períodos intercensitários de 1872 a 2000. 2007. Disponível em . Acesso em: 07 jul. 2010

(2) CAMARGO, Alexandre de Paiva Rio. Mensuração racial e campo estatístico nos censos brasileiros (1872-1940): uma abordagem convergente. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Série Ciências Humanas. Belém, v. 4, n. 3, p. 361-385, set.- dez. 2009. Disponível em: . Acesso em: 07 jul 2010.

(3) MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. P. 98-99, apud CAMARGO, 2009, p. 7.

(4) IBGE. Anais do II Encontro Nacional de Produtores e Usuários de Informações Sociais, Econômicas e Territoriais. Pesquisas Históricas nas Instituições Estatísticas. CDDI/IBGE. 2006, p. 10

(5) CARNEIRO, Sueli. A miscigenação racial no Brasil. Correio Braziliense. Opinião. 2000. Disponível em: . Acesso em: 07 jul 2010.

(6) IBGE. Síntese das Etapas da Pesquisa. 2010. Disponível em: . Acesso em: 07 jul 2010, p. 24.

(7) BOTELHO, Tarcisio R.. Censos e construção nacional no Brasil Imperial. Tempo Soc., São Paulo, v. 17, n. 1, June 2005 . Disponível em . Acesso em: 07 Jul. 2010. O artigo é uma versão revisada da Parte III da tese de doutorado em História Social pela USP.

(**) Iniciativa do Coletivo de Entidades Negras (CEN), com apoio irrestrito de Instituições de Religiões de Matrizes Africanas e do MN.

domingo, 11 de julho de 2010

Futebol

Em nome de todas as mulheres que gostam de futebol; que mesmo que não saibam bem identificar um impedimento, sabem o que é tiro de meta, lateral, escanteio, etc. A nós, que não olhamos a copa do mundo só para ver homens bonitos (mesmo que alguns Forlán's da vida não tivesse como não "reparar"), a todas nós que preferimos olhar, torcer, vibrar do que fazer compras no shopping, como muitos gostam de insinuar, colocando o futebol como coisa masculina; em nome de nós mulheres que gostam de futebol, grupo que cresce cada dia mais, digo: Parabéns Espanha! Foi merecido! E é a voz do Polvo!



E atenção, terça-feira começa a Copa do Mundo de Fuebol Feminino Sub 20, e os jogos do Brasil e os jogos finais serão transmitidos pela Band, conforme abaixo.
Calendário:
13/07/10 | ter | 06:15 | Brasil x Coréia do Norte

16/07/10 | sex | 09:45 | Brasil x Suécia

20/07/10 | ter | 09:15 | Brasil x Nova Zelândia

24/07/10 | sáb | 06:15 | Quartas de Final

24/07/10 | sáb | 12:45 | Quartas de Final

29/07/10 | qui | 10:15 | Semifinal

29/07/10 | qui | 13:15 | Semifinal

01/08/10 | dom | 06:45 | 3º lugar

01/08/10 | dom | 09:45 | Final

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sobre Avatar (corrigido)




Finalmente assisti a badalado e multimilionário filme Avatar, do diretor James Cameron. Confesso que toda a mídia em cima, toda a badalação tinham me deixado com um pé atrás para assistir o filme. Contudo, confesso também a maravilhosa surpresa que tive.
Havia ouvido críticos (sempre eles) acusarem que o filme é quase só efeitos especiais, muito pouca história, etc. E este pré-conceito era a imagem que eu tinha sobre o filme.
Claro, muita gente vai no cinema pra ver os efeitos especiais, os tiros, os animais fantásticos; muita gente veste seu óculos 3d (o que não foi meu caso, já que vi na TV normal, em DVD) e a mensagem em si entra por um ouvido e sai pelo outro, porque o que importa são os efeitos; tem gente que leva os filhos que não vão entender quase nada para que este se maravilhem com o mundo fantástico e diferente e não são capazes de fazer um esforço mental de discutir a questão ambiental e social que o filme traz, de forçar a mente dos pequenos; aí está, o problema não é o filme, são as pessoas (e o filme mostra isso).
Avatar mostra a guerra entre a sabedoria e a ganância... O dinheiro tenta passar por cima de todos os valores sociais e morais, usando da violência para subjugar um povo a seu uso, a seus valores estritamente econômicos, não conseguindo enxergar além de seu próprio nariz. É uma denúncia direta à destruição da natureza; e mais, uma metáfora perfeita de como ela reage a nossa ignorância... somos insetos que, incomodando demais, seremos facilmente esmagados. Prova disso são todos os desastres ambientais que vêm ocorrendo cada vez com mais frequência, ou seja, a mãe natureza Eywa, tentando buscar seu equilíbrio frente a nossa destruição desenfreada. Ou aprendemos a cuidar de nossa casa, de nossa mãe criadora, ou ela nos eliminará.
Pra qualquer pessoa com um mínimo de consciência da realidade, é impossível assistir Avatar e não sentir um nó na garganta. Questões a princípio tão distantes, vêm a tona quando percebemos que o filme, que não é tão ficcional assim, a não ser pelos efeitos, é uma metáfora da realidade do mundo. Como não pensar que os Na'vi são os povos atingidos pelo monstruoso projeto da Usina Belo Monte? Que eles são os indígenas e muitas outras populações tradicionais mundiais dizimadas pela ganância e pela busca de riquezas desde o "descobrimento" do Novo Mundo? Como não fazer analogias que se mostram tão claras?
E mais, James mostra quase a evolução da disciplina da Antropologia. O personagem Jake chega "a tribo" como um evolucionista, depois ou ao mesmo tempo, trabalha de espião, aprende tudo sobre aquela tribo. Por fim, ele se envolve e percebe a legitimidade da causa do grupo; ele acaba se tornando "nativo", e isso, a antropologia vêm superando; acho que esamos mais pra Grace ou Norman ou Trudy. E mais, (e isso foi engraçado), Jake lembra a obra de Turner, algo do poder dos fracos, estrutura e anti-estrutura, do forasteiro herói... Enfim, muitas coisas doidas passaram pela cabeça. Mas acima de tudo, recomendar o filme. Esqueçam os efeitos e deixem a mente intelectual agir. Avatar vale a pena!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Somos todos remanescentes?

Pra ser brasileiro agora precisa gostar de samba e comer feijoada?

Pra ser alemão tem que tomar choppe e comer linguiça?

Pra ser russo precisa tomar vodka e usar chapéu de pelo?

Pra ser escossês precisa usar kilt e tomar uísque?

Não? Então por que tanta gente teima que pra ser índio tem que estar de cocar, fazer dança da chuva, andar nú, só se casar com alguém da tribo, entre tantas outras exigências absurdas?

O que leva a exigir uma unificação, uma representação estereotipada de uma cultura e não de outra?

Cada cultura é dinâmica e assimila diversos elementos dos demais grupos com os quais convivem, não perdendo, por isso, sua particularidade. Mesmo que muita gente não aceite, com as comunidades indígenas não é diferente. E não é porque usam roupas industrializadas (ou como alguns teimam, "roupas de brancos"), cultuam diversas religiões ("de branco"?) e assimilam novos traços, que deixam de ser índios. O que faz crer que nós podemos mudar, eles não? O que faz crer que o índio tem que ser igual ao que era quando os portugueses chegaram aqui para que sejam realmente índios? Qual o poder da "sociedade branca" para exigir que não haja mudança, para dizer o que é e o que não é índio? Empowerment indígena, já!

Apenas uma breve reflexão com a qual cada um pode pensar o que quiser. Dica de leitura:

http://www.scielo.br/pdf/mana/v3n1/2455.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93131997000200004

http://www.scielo.br/pdf/mana/v4n1/2426.pdf

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Música Gaúcha Social e Política

João Chagas Leite é um cantor e compositor gaúcho, nascido em Uruguaiana. Entre os temas que canta, vemos uma constância de letras de cunho crítico, político e social. Cresci ouvindo "Ciranda" e sei que ela despertou em mim boa parte da minha vontade de luta. João Chagas Leite poderia ser adotado como mais uma voz dos movimentos sociais. Leiam e prestem atenção nas letras a seguir:

Ciranda

João Chagas Leite

É bem mais fácil, para alguém falar em flores
Quando o destino, fez de pétalas seu ninho
É bem mais doce, não sentir amargas dores
Tendo mil rosas a enfeitar o seu caminho

Porém nem todos, têm destinos semeadores
E a primavera, a bem poucos acalanta
Quem nada faz, muitas vezes colhe as rosas
Deixando apenas, os espinhos pra quem planta

Quem planta terra, cala a voz perante o forte
Ergue muralhas de riquezas e vaidades
Se faz a hora de erguermos vozes tantas
Pois se levanta uma nova realidade

Vamos dar as mãos nesta nova ciranda
Forjando junto um porvir bem mais risonho
Onde a injustiça, sejam rastros repisados
Já apagados, pela rosa azul dos sonhos

Vamos dar as mãos, e abrir as portas do coração
Pra um amanhã, claro e seguro
Embora o ontem, tenha sido flores mortas
Pois nunca é tarde pra quem quer plantar futuro

Alerta De Sangue

Vaine Darde / João Chagas Leite
Canção / Guarania

Esses homens que caçam que atiram e que matam
Fazendo da morte esporte e lazer
Não sabem por certo que um dia por perto
Os campos desertos também vão morrer.

E em cada estampido das armas fatais
Há um mundo perdido na vida que cai.

Vai ser temporada de caça outra vez
Lá vem espingarda, matança outra vez
Em cada espécie que aos poucos se some
Também morre um pouco da vida do homem

Falado:

No vôo detido das tardes do sul
Agoniza ferido um pedaço de azul
E a vida que prende ao eco de um bang
Nos deixa no verde um alerta de sangue.

Marcha Dos Aflitos

Vaine Darde / Jão Chagas Leite
Huapango

Os favelados dos descasos dos palácios
Ergueram cantos de famintos esperanças
E o batalhão marchara de pés descalço
Pedindo a queda do cabresto e da ganância.
Pois a bandeira da miséria desfraldada
Tremula colorida de remendos
Clamando terra pras insônias enxadas
Mostrando aos fortes que o amor venceu o medo.

Então as gaitas e violões pelas esquinas
Ecoarão fazendo oficio a voz do povo
Mostrando ao mundo que a América Ltina
Se descortina pouco a pouco um tempo novo.

As aldeias exiladas sobre as pontes
Se unirão aos horizontes das marquises
Encorporando aos aflitos e os errantes
Num batalhão esfarrapados de infelizes.
Mas a vaidade dos anéis, estrelas e luas
E a indiferença do poder em loucas mãos
Serão vencidos pela fome nua e crua
Para que em fim a liberdade seja pão.

Meninos Latinos

Meninos latinos paridos sem teto
Sem trato, sem tino famintos de afeto
Piratas da vida, heróis vagabundos
Sem ida, nem vinda perdidos no mundo.

Que pena tão jovens já órfãs de trato
Lavando automóveis, polindo sapatos;
Batendo carteiras, roubando maçã
Passando rasteira no próprio amanhã.

São craques da bola de olhos tristonho
Sentem na cola um cheiro de sonho
Sentem na cola um cheiro de sonho.
Mas pobres garotos por fatalidade
São simples aborto da mãe sociedade,
São simples aborto da mãe sociedade.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Disse tudo!!!!

Morador da Comunidade Quilombola Ivaporunduva-SP, sobre as restrições ambientais impostas à comunidade:

"Com os pequeno eles agem. O grande que faz aquela desmatação não. Os pequeno é o que eu te disse, mas os grande que fazem as coisas exagerado é livre. Isso que eu acho que é uma coisa é uma lei que não é misturada essa lei. Porque uma lei executiva ela tem que ser para os grandes e pequenos em geral. Porque, por exemplo, um pequeno que nem a gente vai ali corta meio salaminho de chão, meio salaminho de mato, porque a gente não agüenta fazer uma roça grande mesmo. Corta meio salaminho de mato e o Florestal vai e cata a gente e se ele não pagar multa até preso vai. Agora o grande que derruba 100 e 200 alqueires, quantidade grande de mato, é tudo que derruba, não vai."

Disse tudo!!!

Retirado de: A política do reconhecimento dos "remanescentes das comunidades dos quilombos". Miriam de Fátima Chagas. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832001000100009&script=sci_arttext

quinta-feira, 20 de maio de 2010

sejamos inteiros

“Duas bolas, por favor!”
Texto de Danuza Leão


Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa,
contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente
uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido. Uma só.

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas
vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai a festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’).

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação…

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça,enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão…

Às vezes dá vontade de fazer tudo ‘errado’.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: ‘Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora’….

Nós, que não aspiramos a santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.
Um dia.
Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do ‘Friens’(1), uma caixa de trufas bem macias e o Antônio Banderas, nu, embrulhado pra presente. OK?

Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente ve como é que faz pra consertar o estrago…

(Ps: (1)Eu troquei "Law & order" por "Friends" e o "Richard Gere" pelo "Antônio Banderas", por questão de gosto pessoal... E amor, me desculpe, o Banderas é lindo e foi só pra manter o humor do texto tá?)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sociologia no Ensino Médio

Matéria:
Jovens estudam as relações sociais

> Veículo: Gazeta do Povo
> Data: 27/4/2010
> Repórter: Tatiana Duarte

O estudo da Sociologia deixou de ficar restrito a poucos brasileiros que ingressavam no ensino superior e optavam por um curso na área de humanas. Conceitos de clássicos pensadores como Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber também são discutidos por jovens estudantes do ensino médio. A possibilidade veio de uma legislação que entrou em vigor no ano passado e prevê a implantação gradativa da disciplina nos três anos do ensino médio até o ano que vem. Por enquanto, todas as escolas brasileiras são obrigadas a ofertar a matéria em pelo menos dois anos do currículo. A inserção da ciência que estuda as relações sociais no conteúdo da escola tem agradado. A estudante do segundo ano do ensino médio do curso Positivo Amanda Zanellato Tavares, 15 anos, considera importante saber como funcionam as relações nas sociedades. “Aprender Sociologia faz com que a gente cresça com uma consciência de vida em sociedade mais bem formada”, diz.

A estudante participa de um projeto que relaciona o conceito de cultura e sociedade e estuda a religiosidade presente nos hospitais. O projeto de estudo faz parte do plano pedagógico do Colégio Positivo. Em vez de uma hora aula da disciplina por semana, conforme prevê a lei, os estudantes se reúnem uma vez por mês no contraturno por quatro horas. Além de ter acesso à teoria, os 1,2 mil alunos dos primeiro e segundo anos do ensino médio também recebem profissionais convidados para proferir palestras. De acordo com a coordenadora do Departamento de So ciologia do Positivo, Vera Lúcia Molin Siqueira, cada aluno fará parte de um grupo que irá realizar pesquisa de campo que resultará num trabalho científico. São 12 eixos temáticos disponíveis para objeto de estudo. “A nossa ideia é aliar teoria com a prática. Todo este desenho do projeto tem o objetivo de fazer os alunos perceberem por que a Sociologia é importante”, diz.

Antes da lei - Em algumas instituições, a Sociologia veio antes mesmo da obrigatoriedade imposta pela legislação. É o caso dos colégios Dom Bosco, Novo Ateneu e da rede estadual pública de ensino. No Novo Ateneu, os alunos estudam Sociologia em pelo menos uma das séries do ensino médio desde 2006. No ano passado, a disciplina passou a fazer parte do currículo dos três anos que compõem o ensino médio. Para a coordenadora do Novo Ateneu, Eneide Cordeiro Moreira, o conteúdo sociológico ajuda os adolescentes a enxergar o mundo de outra maneira. “Eles aprendem a argumentar e podem se inserir cada vez mais como cidadãos participativos”, diz.

O professor de Sociologia Syllas da Fonseca ressalta que a disciplina foi retirada dos currículos escolares durante o regime militar. Um movimento restrito às faculdades, na década de 90, passou a pressionar pelo retorno da disciplina. “A Sociologia ajuda a formar cidadãos mais conscientes e críticos, que vão brigar contra a má gestão pública e corrupção”, diz. No Colégio Dom Bosco, a Sociologia passou a integrar o currículo do ensino médio em 2008, quando a Universidade Federal do Paraná (UFPR) começou a cobrar este tipo de conteúdo no vestibular, segundo conta o diretor-geral do ensino médio, Artur Xavier. Na rede pública estadual de ensino, a Sociologia foi implantada em 2004 e já estava presente em pelo menos um dos três anos do ensino médio desde 2007.

De acordo com a chefe do Departamento de Educação Básica da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, Mary Lane Hutner, foi criada uma equipe de Sociologia para trabalhar a formação dos professores e construir as diretrizes curriculares. Mary Lane diz que em breve será necessário abrir concurso para professor de Sociologia com formação específica. “A rotatividade é muito grande”, diz. Segundo ela, a presença da disciplina no ensino médio é fundamental para a formação de cidadãos mais críticos. “A discussão que ocorre na escola é a reflexão do mundo em que vivemos, dos temas que são pertinentes e estão no auge de nossa sociedade, tudo com sustentação teórica.”

Meu comentário:
A matéria é interessante e a experiência desse colégio positivo parece promissora. A questão não é a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio (apesar de isso já ser um passo), mas sim, o conteúdo e o profissional (que deve ser um sociólogo, antropólogo, cientista social), que devem estar de acordo com a sociologia. Minhas aulas de sociologia no ensino médio eram sempre ministradas pela professora que tava com horas sobrando e saí de lá sem a mínima noção do que era sociologia; muito tempo depois, quando minha mãe foi cursar o ensino médio, na mesma escola, teve aula de sociologia com uma pedagoga que nunca na vida tinha lido nenhum dos três clássicos básicos e não tinha noção nenhuma do que era sociologia. Meu namorado, de outra cidade, também reclama das mesmas coisas sobre as aulas de sociologia (as três experiências são em escolas públicas). Enfim, e aí? Adianta a sociologia ser obrigatória quando qualquer um pode ministrar as aulas? Espero que a legislação, que ainda é recente e como a gente sabe que acontece no país, demora para ser efetivamente implantada, faça com que se mude esse quadro e que as experiências relatadas, todas no ensino privado, também se estenda às escolas públicas.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dica de filme

Esses dias vi no Space um filme excelente, que discute a questão da água diante do aquecimento global e coloca em cheque a contradição entre o interesse da empresas privadas (economia) que tem o apoio velado do governo e o interesse pelo bem estar da população. Uma região da Alemanha passa por uma terrível onda de calor e uma cientista, com base em seus relatórios tenta enfrentar a todos para evitar uma tragédia. O filme é muito bom, mas dificílimo de achar. No canal, passou com o nome "Onda de Calor (Heat Wave)", mas depois de horas de pesquisas no google, na qual não encontrava o dito cujo do filme, nem em pesquisas em português nem em inglês, resolvi traduzir o título pro alemão (e eu não entendo naaaaadaaaaa de alemão) e cheguei a palavra "Hitze" e com essa, consegui achar sites (um em inglês com pouca informação, e outro em alemão, que só reconheci pelas fotos) que trouxeram enfim, o nome original do filme: "Die Hitzewelle - Keiner kann entkommen". É, esses nomes alemães são enormes. E pelo jeito esse filme é daqueles produzidos pra TV. Mas como é o bom cinema alemão, é de excelente qualidade.
Enfim, segue os sites para quem quer mais informações e quer se arriscar no alemão:

http://www.sat1.de/filme_serien/filme/content/28085/

http://www.kino.de/kinofilm/die-hitzewelle-keiner-kann-entkommen/108480.html

http://www.imdb.de/title/tt1179270/combined

terça-feira, 11 de maio de 2010

As migrações no Brasil

As migrações no Brasil

Por Luiz Bassegio e Luciane Udovic*

O Brasil, com cerca de 180 milhões de habitantes, tem 81% de sua população vivendo no mundo urbano. As grandes capitais possuem cinturões de pobres e de desempregados, sendo os jovens os mais atingidos. Na sua maioria, são migrantes e filhos de migrantes provenientes do mundo rural, nas décadas passadas, vítimas de um modelo de desenvolvimento centralizador que concentrou em poucas mãos as terras, o capital e as indústrias. Temos também a migração temporária para o corte da cana e colheita de laranja, café e algodão, e as migrações dos países próximos ao Brasil como Bolívia, Paraguai e Peru.

Por outro lado, há quase três milhões de brasileiros que emigraram para o exterior, sendo um milhão nos Estados Unidos, trezentos mil no Paraguai e Japão, além de dezenas de milhares na Espanha, Portugal, Itália, França e Inglaterra.

A causa profunda é uma globalização que não distribui riquezas, que globaliza o acesso livre aos mercados, mas não é solidária; elimina barreiras comerciais, mas impede a circulação das pessoas, defende o livre mercado como um direito, mas dificulta ainda mais o acesso aos direitos básicos; globaliza-se a miséria, mas não o progresso; a dependência e não a soberania, a competividade e não a solidariedade (Manifesto do Grito dos Excluídos - 2002).

A expansão e a crescente mecanização do setor canavieiro têm gerado maior exploração da força de trabalho. Principalmente em São Paulo, a maior parte do corte da cana é realizada por trabalhadores migrantes, principalmente do Nordeste e do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais. A Pastoral dos Migrantes estima que cerca de 200 mil trabalhadores migrantes se deslocam em São Paulo no período da safra de cana, laranja e café.

“Nadie es ilegal en donde quiere que viva”

Também explorados são os imigrantes latinoamericanos, sobretudo os bolivianos que trabalham no setor da costura em regiões centrais da cidade de São Paulo. São jovens aliciados diretamente da zona rural da Bolívia para a produção de roupas que são vendidas para todo o Brasil. Na capital paulista, há centenas de milhares deles, dos quais 40% em situação irregular. Muitas vezes acabam como escravos em oficinas de costuras na região central da capital, como Brás, Bom Retiro, Mooca, Vila Maria e Pari. A origem desta situação tem a ver com a realidade destes países dos quais muitos fogem em busca de melhores condições de vida e trabalho.

São muitos os relatos de pessoas recrutadas na Bolívia com anúncios de rádio e jornais enganosos que prometem emprego, moradia e salário. Chegando aqui a realidade é outra. Os primeiros seis meses de trabalho são para pagar o custo da viagem ao intermediário que os trouxe (gato ou coiote). Muitas vezes os passaportes são retidos e há ameaça de denúncia à polícia caso o imigrante não cumpra as exigências do intermediário. Passados 3 meses, o imigrante tem seu visto de turista vencido e torna-se um “indocumentado”.

O mais grave de tudo é a impossibilidade de exigir direitos, seja pela dificuldade da língua, ou pelo fato de estarem indocumentados e submetidos a uma lei de estrangeiros que é autoritária, xenofóbica, restritiva e ainda uma fábrica que produz indocumentados.

Não costumam delatar os patrões. E sequer imaginam estar sendo explorados. Não é incomum ouvi-los dizer que preferem trabalhar no Brasil a trabalhar na Bolívia. Famílias inteiras, em condição ilegal, aceitam trabalhar e viver em oficinas de costura. Preferem trabalhar até 17 horas por dia a ficar desempregados em seu país.

A Nova Lei dos Estrangeiros

O anteprojeto da Nova Lei dos Estrangeiros, que tramita no Congresso Nacional, é extremamente seletivo do ponto de vista econômico e não resolve a situação dos trabalhadores imigrantes indocumentados. Para isto, basta enumerar as diversas categorias privilegiadas que são mencionadas no artigo 11 e que poderão vir ao Brasil: estudo (ensino fundamental, médio, curso de graduação e pós graduação); artista e desportista; administrador, gerente, diretor, executivo de sociedade civil ou comercial, grupo ou aglomerado econômico; correspondente de jornal, revista, rádio, televisão ou agência estrangeira de notícias; ministro de confissão religiosa voluntário; dirigente de organização não governamental ou de pesquisa; marítimo ou técnico embarcado em navio de carga, turismo ou pesca.

Realidade planetária, o fenômeno migratório apresenta-se como contraditório e complexo. Indesejados e “necessários” os migrantes fazem parte da lógica da mobilidade forçada, imposta pelo capital, que exclui, descarta, atrai, inclui precariamente, explora, massifica e reprime.

Por estas e outras razões, queremos uma integração que contemple os aspectos sócio-econômicos, políticos, e culturais. Neste sentido, o Mercosul não pode ser apenas um tratado econômico e comercial. Reivindicamos também uma nova Lei dos Estrangeiros: a atual é ultrapassada, xenofóbica e com resquícios da ditadura militar. É necessária uma nova lei, uma anistia geral, o direito à residência, direito de ir e vir na região (não só para o capital financeiro) e ter os direitos reconhecidos em todos os países da região.

Além disso, a crescente interdependência, causada pela dinâmica atual da globalização, começa a evidenciar a conveniência, e a necessidade, de definir o que já passou a se denominar de “cidadania universal”. Cada vez mais emerge a necessidade de se reconhecer a todo ser humano um direito explícito de “cidadania universal”, pelo simples e fundamental fato de ser membro da família humana, com direito a ocupar o seu espaço vital e a contribuir com sua presença e atuação.

O fenômeno migratório aponta para a necessidade de repensar o mundo não mais baseado na competitividade, mas na solidariedade; não na concentração, mas na repartição; não no fechamento das fronteiras, mas na cidadania universal. Um mundo baseado não no consumo desenfreado, mas numa sociedade sustentável, onde haja lugar e vida digna para todos e todas.

* Luiz Bassegio e Luciane Udovic são da Secretaria do Grito dos/as Excluídos/as Continental

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O despertar do pensamento sociológico

Este breve trabalho foi entregue no dia 01/07/2005, numa disciplina de sociologia, nos tempos da minha graduação e, trago aqui, basicamente sem revisão, como, curiosidade (pelo fato de tê-lo encontrado sem querer enquanto procurava outras coisas), como informação e como ilustração do despertar sociológico numa estudante de ciências sociais, como o início das reflexões. Ele está crú, a bibliografia está incompleta, basicamente não o revisei (por falta de tempo), então espero tolerância com o que foi escrito há 5 anos atrás, quando eu era ainda mais jovem.

O espaço e a cultura local diante do advento da globalização

Este trabalho visa mostrar as transformações que a globalização implicou na cultura compreendida no âmbito do local. Na sociedade globalizada as culturas locais parecem perder cada vez mais seu espaço diante da homogeneização dos processos culturais. A autonomia, a tradição, vem perdendo espaço diante da mundialização da cultura, usando o termo de Renato Ortiz.
Essa homogeneização é real? A cultura local esta realmente sendo perdida no processo de mundialização da cultura? Como ocorreu (ou ainda ocorre) esse processo? São essas perguntas que procurarão ser esclarecidas no presente trabalho.

O conceito de cultura local ganha força no século XVIII, com o advento do conceito de moderno de nação. A nação moderna busca trazer uma integração das diversidades, e não uma homogeneidade cultural. Porém esta pluralidade deve ser mantida sob o domínio de uma hierarquia. Com isso tenta-se buscar uma idéia de totalidade nacional. A nação não deve ser confundida com o Estado, a máquina de poder político-administrativo, sendo imposto por coerção e força. A nação busca se articular numa “unidade mental e cultural”, como diria Mauss, entre seus habitantes; ela propõe um ideal comum partilhado por todos. Dessa idéia de ideal, de consciência coletiva, surge também a idéia de cidadania, onde os povos sentiriam a necessidade de uma identidade nacional. Para a criação desse desejo de cidadania, para instituir esses ideais sociais, a nação se valeu de muitas técnicas, como: a criação de símbolos nacionais, de uma língua nacional (no caso dos países plurilinguísticos), contando também com a escola, a imprensa e os meios de transporte para a formação das nacionalidades. Foi através da modernidade dos meios de comunicação que uma região pôde entrar em contato com outra, que antes pareciam muito distantes. Esses formam elementos essenciais para a criação, propagação e discernimento de uma cultura local, pretendendo uma unidade nacional. No Brasil temos uma grande dificuldade em perceber essa unidade. Percebe-se com mais facilidade sentimentos regionalistas, “bairristas”, onde cada região procura cultivar suas tradições (mesmo com as reinterpretação, que pretendo discorrer depois). Acredito haverem três fatores que contribuíram muito para esta diversidade: a extensão do território do país; o fato de ser um país colonizado, e depois trazendo, assim, imigrantes de diversas partes do mundo, como suas tradições já configuradas; e também o desenvolvimento tardio dos meios de transporte e comunicação, cujo alguns lugares ainda tem grande dificuldade de acessos.
A partir do advento da modernidade, da industrialização e, principalmente, do grande desenvolvimento da comunicação, o local, o espaço-tempo, tornam-se indefinidos, a reestruturação das relações sociais e dos contextos territoriais. Os espaços são diminuídos através da construção das ferrovias e mais tarde, de aviões. Onde antes se demoravam meses para viajar a cavalo, na era moderna demora-se dias e na atualidade (na pós-modernidade, como diriam alguns) demora-se apenas algumas horas. O tempo também é diminuído. Com o advento do rádio, televisão, internet, respectivamente, as informações começam a ser simultâneas aos acontecimentos. Sabe-se do que está acontecendo (ou até mesmo do que pode estar para acontecer) do outro lado do mundo, em questões de segundos.
Diante disso, o conceito de nação vem se enfraquecendo. A cultura local vem perdendo força diante das propagandas, do consumo de uma homogeneização. Cria-se um idealismo, uma necessidade, de estar inserido no mundo, de fazer parte de uma cultura global. As tradições começam a ser questionadas, em muitos lugares não se admite mais uma verdade formular (inquestionável) como forma de justificativa. As nações com grande poder tecnológico, que detém grande parte do capital, criam um discurso político com uma argumentação cultural correspondente, que supõem o fim das diversidades nacionais, tentando convencer que a globalização é o único horizonte natural para os povos do planeta. Ela busca, de acordo com Cesnik e Beltrame, uma dominação cultural, através daqueles que detém o poder, ou mais precisamente, através dos valores norte americanos de viver. Essa dominação se daria através de programas de televisão, através da música, da imposição do idioma diante do mercado de trabalho, dos fast-foods, entre tantos outros disseminadores de valores como consumismo e individualidade defendidos pela cultura norte americana. Tem-se às vezes a impressão de que o ser aos poucos se transforma no ter.
Porém, mesmo que se pretenda, a globalização está longe de conseguir uma homogeneização cultural. Ao contrário, provoca cada vez mais grandes contrates culturais, sócio-econômicos, políticos entre os diversos povos do planeta. Nem todos estão inseridos nos valores, nem todos podem TER. A informação não chega a todos, a comida não chega a todos, as técnicas, o poder de consumo. “O mundo está dividido entre turistas e vagabundos”, como diz Zygmunt Bauman , ou seja, entre aqueles que estão inseridos na globalização e aqueles esquecidos, deixados de fora do sistema. Nestes locais, ainda se encontra uma grande resistência da cultura local, talvez uma forma de resistir ao sistema excludente.
Mas há também uma influência positiva da globalização sobre a cultura global. A globalização desloca à esfera da cultura local de espacial para uma esfera social. Diante deste sistema de rápidas informações, povos de mesmas culturas (como emigrantes, por exemplo) podem manter e estar em contato com suas culturas locais podem transpor as distâncias.
Essa rápida comunicação também permite uma organização entre grupos de diversas culturas, uma troca de conhecimentos e formação de laços que podem servir como resistência à própria dominação cultural. Esses grupos podem se utilizar das armas da própria globalização para lutar contra a sua premissa mais preocupante, a homogeneização cultural.
Outro fator importante ainda a ser relatado são as relações que o local passa a ter com o global diante do “fenômeno” da globalização. Partindo da perspectiva de A. Giddens, a globalização, como foi dito, não deve ser visto apenas como um mal para a humanidade e para a diversidade. De acordo com Giddens, vivemos numa sociedade desmantelada, onde a sociedade global prevalece sobre a local. Os paradigmas são todos regidos por um “mega paradigma”, que tem sempre sua base na sociedade global. Vivemos numa sociedade de incertezas, de neuroses. As nossas ações podem ter dimensões antes inimagináveis.
Como diz o autor, não é a penas o global que influencia no local. O local também pode influenciar no global. Nossas ações cotidianas podem desencadear em ações em grupos, e de repente desencadear numa ação mundial. A rapidez das informações, a transformação do tempo e do espaço, faz com que pequenas sejam difundidas e aderidas em diversas partes do globo. Um desses exemplos é o Fórum Social Mundial. Uma idéia que começou com um pequeno grupo de pessoas, em Porto Alegre, e rapidamente se espalhou pelo mundo, tornando-se o maior evento social do planeta. Tanto que agora, houve uma reformulação, e serão realizados anualmente Fóruns Regionais, entre países de uma mesma região, de um mesmo continente. Este é apenas um exemplo, entre tantos outros.
A tradição também não foi totalmente desfeita diante da sociedade global. Ela foi reformulada. Suas verdades não são mais inquestionáveis, agora procuram se basear em verdades proposicionais, ou seja, baseadas em algumas justificativas (não procurarei discutir a natureza dessas justificativas). Percebe-se até um diálogo internacional sobre essas tradições reformuladas, como são os casos dos Centros de Tradições Gaúchas em Roraima, EUA e Japão, por exemplo, ou o caso, dos decentes de imigrantes alemães e italianos que viajam para Itália ou Alemanha para mostrar como foi mantida a tradição fora do local. Esses países buscam um resgate do passado entre os imigrantes brasileiros, pois são tradições que não são mais mantidas nesses países.


Conclusão:

Em vista de todos os fatores apresentados acima, pode-se perceber, a princípio, um desmantelamento, um enfraquecimento da cultura e do espaço local, diante das propostas de consumo e “homogeneidade” da globalização. A globalização traz em si uma propaganda de individualidade, do tipo “compre, seja o que quiser”. Diante do conceito de supermercado cultural de Gordon Matthew o individuo, esteja onde for, pode formar sua própria identidade. As culturas locais perdem suas peculiaridades para dar lugar à miscigenação cultural, feita através das escolhas individuais de quem tem poder de consumo, de quem pode estar dentro.
Por sua vez, a globalização apresenta-se assim como um sistema de exclusão dos mais fracos, daqueles que não tem grande força, capital ou tecnologia para manter uma cultura local. Porém, como se pode ver, é possível usar das facilidades de comunicação para criar armas para resistir a esse sistema, a de dominação, através da propagação da cultura local para os mais diversos pontos do globo.
Vejo como muito importante uma resistência das culturas locais diante da homogeneidade proposta por este sistema. É claro, em muitos casos, as culturas locais sofrem grandes reformulações, muitas vezes positivas. Isso é um fenômeno natural, entendo-se que a cultura não é estática e sim, dinâmica. Mas é necessária uma resistência, para que alguns valores, como humanidade, solidariedade, sejam mantidos (ou criados!) e não nos percamos diante de uma banalização das desigualdades sociais, uma individualidade consumista e doentia, que transforma o homem em escrevo das coisas que tem e fecha seus olhos para o que há além do poder de consumo. De forma um pouco utópica, acredito que devamos usar das possibilidades implantadas pela globalização para tentar buscar uma unidade, não cultural, mas sócio-econômica entre as diversas culturas, sem desrespeitar os limites de cada local e esse respeito deve estar também, na esfera do individual, deve-se, antes de tudo, aprender a conviver com o outro, e não apenas se impor sobre ele.


Bibliografia:

Cenik, Fábio de Sá. Globalização da Cultura. Fábio de Sá Cenik, Priscila Akemi Beltrame. Barueri, SP: Manole, 2005.
Fim de Século e Globalização. Org. Milton Santos, Maria Adélia A. de Souza, Francisco Capuano Scarlato, Mônica Arroyo. São Paulo, SP: Annablume, 4a ed.

Featherstone, Mike. Cultura Global: Nacionalismo, globalização e modernidade. Trad. Attílio Brunetta. Pet´rpolis, RJ. Ed. Vozes, 2001.

Ortiz, Renato. Mundialização e Cultura. São Paulo, SP. Ed.Brasiliense, 1994.

Conteúdos e autores discutidos nas disciplinas: Temas Sociológicos Contemporâneos e Globalização e Cidadania.