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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DOR - difícil de traduzir em palavras - Santa Maria

Difícil traduzir em palavras a dor de ver a cidade que tanto amo, na qual vive 4 lindos e loucos e alegres anos de minha vida, vivendo a maior dor que se pode haver...
Difícil imaginar que a Santa Maria dos sorrisos, das amizades, dos amores e dissabores agora seja a Santa Maria das lágrimas, da dor e da morte.
Difícil ver as imagens que não se cansam de repetir, quando a lembrança que se tem são as noites alegres, nas boates, com os amigos.
Muito difícil... Difícil ver a alegre, jovem e universitária Santa Maria, tão linda com suas particularidades, ser conhecida mundialmente pela tragédia, o fogo, a fumaça e a perda de tantas vidas ceifadas...
Não, não foi uma fatalidade, Foi falta de responsabilidade; foi querer ganhar dinheiro. Não foi uma fatalidade; foi um crime.
Santa Maria, ainda te amo e estarei sempre contigo. Minhas alegrias sempre serão suas, assim como, nesse momento, sua dor é minha dor.

Abaixo, um texto que vi sendo divulgado no Facebook, que acho que traduz um pouco do que nós, que já vivemos no pulsante coração do Rio Grande, estamos sentindo:



"Santa Maria - RS

Quem não é de Santa Maria, talvez não esteja entendendo o porquê de tamanha comoção. A questão é que Santa Maria não é apenas uma cidade, é uma fase na vida de boa parte dos gaúchos.

Santa Maria é uma cidade onde muita gente se descobre adulto. Deixamos a casa dos pais e acabamos fazendo amizades com uma facilidade imensa, porque todo mundo se sente meio órfão em Santa Maria.

É aqui que vivemos com estes amigos as histórias que não poderemos contar para os nossos filhos, mas que com certeza lembraremos para sempre. É onde conhecemos as melhores pessoas que levaremos para a vida, muitas destas perdidas nessa tragédia.

Aqui o desconhecido do início da festa se torna amigo de infância até o final da noite. Uma cidade onde é difícil ficar sozinho, porque em qualquer lugar que se vá, algum conhecido da faculdade estará por lá. Aliás, a impressão que tenho é que o mundo é uma porção de terra ao redor de Santa Maria, porque é incrível como sempre encontramos um santa-mariense, seja lá qual dos cantos do planeta estejamos.

Santa Maria é uma cidade onde se pode sair com 2 pilas no bolso e voltar bêbado para casa, porque sempre surgem copos de cerveja durante a madrugada. É aqui que conhecemos um bando de loucos que daqui uns anos serão profissionais das mais diversas áreas pelo país todo, afinal, aqui todo mundo é universitário.

Santa Maria é uma cidade pequena com cara de cidade grande, ou uma cidade grande com o sentimento de uma cidade interiorana. O que fica disso tudo é que, deveras, Santa Maria é a cidade coração do Rio Grande".

Via - Marcio Nunes de Nunes



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Foda-se

De repente, você percebe que por mais que você faça, por mais que você se esforce e faça tudo que estiver ao seu alcance, sempre haverá alguém pra achar que você deveria fazer melhor, que você fez mal feito, que você deveria fazer diferente
. Claro, essas pessoas não vivem o que você vive, não tem as mesmas armas que você tem pra lutar, ou a falta dessas armas; essas pessoas sabem dar palpite, ideias no máximo, mas não querem estar do seu lado, investir, executar e assumir as consequências. Você se sente decepcionado, frustado, ainda mais quando isso vem de uma pessoa que era importante pra você. Não é fácil deletar algumas pessoas de nossas vidas. Mas a gente tem que ter consciência de que deu e está sempre dando o seu melhor. E é como o povão diz por aí: "Fácil me criticar, difícil mesmo é ser eu"
Pra esses uns que gostam de criticar, que acham que fariam melhor que você, mas não vem fazer, que sabem dar ideias, mas não sabem ajudar a colocar em prática; que aparecem ocasionalmente pra ver os problemas, mas não vivem o dia a dia pra ajudar a achar soluções, tenho uma coisa a dizer:



sábado, 27 de outubro de 2012

Mulher

MULHER

Diante de tanta futilidade e preconceitos e de tantas mulheres cujas atitudes só reforçam o preconceito que se tem contra elas, digo aqui qual, ao meu ver, é a verdadeira mulher, a mulher sábia, que merece todo o respeito e admiraçã
o de qualquer ser humano.
A mulher que mantém sua vaidade, mas não se deixa dominar por ela.
A mulher que mantém a doçura, sabendo que essa não é contraditória a ter muita força.
A mulher que arrisca, que tem coragem de enfrentar o mundo, enfrentar o medo, mas que o faz com toda a cautela quando for preciso.
A mulher que usa o coração e a razão, mas sabe quando é necessário deixar o coração falar mais alto.
A mulher que fala o que pensa, mas que também sabe ouvir e respeita.
A mulher multifuncional, que sabe assumir bravamente e com elegâncias todas as facetas da sua vida, mas que procura algum companheiro ou companheira que assuma com ela ou que traga novas facetas consigo, para que sigam juntos, e não para que a sobrecarregue ainda mais.
A mulher que se assume, que se acha linda, que sabe usar sua sensualidade, sem confundir com vulgaridade. Que sabe diferenciar o belo e sensual do vulgar e comum.
A mulher que não tem medo da idade, das rugas, pois compreende que tempo é sabedoria.
A mulher que sabe que inteligência é diferente de sabedoria e por mais inteligente que seja, está sempre atrás da sabedoria.
Mulheres assim, talvez sejam raras, ou talvez seja apenas uma questão de descobrir-s, assumir-se. Muitos homens não querem uma mulher assim ao seu lado, ou tem medo de mulheres assim. Digo que aqueles que não as querem, mais do que não querer, não as merecem. Uma mulher assim precisa ser merecida, conquistada. Uma mulher assim, não é o tipo que "se pega". É o tipo que se doa para quem a merece.
Para todas essas mulheres lindas e os homens ou mulheres que as conquistaram, um bom final de semana.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quando a gente fica com vontade de matar um

Hoje quase matei 1, 2, uns 5... Saí da Academia umas 20:10, louca de fome porque só tinha comido umas 5 bolachinhas água e sal, com pressa, para encarar 1h de JUMP, mais 1h de Musculação. Então, morta de fome e super suada e fedendo fui passar "rapidinho" no Extra, que fica no meio do caminho entre a academia e minha casa pra comprar algo pra janta, salada para o almoço de amanhã e mais uma coisinha o outra faltando. Vamos começar os cálculos. Da Academia até a minha casa dá de 12 a 15 minutos de bicicleta, que é como eu vou. Se o Extra fica no meio do caminho, dá uns 7 minutos até o Extra, então cheguei lá no máximo 8h20. Não tinha muita coisa pra comprar, mas infelizmente ultrapassei os 20 itens e não pude ir pro Caixa rápido, mas já estou me adiantando na história. Enfim, devo ter demorado uns 20 a 25 minutos fazendo compras, porque era pouca coisa, eu sabia o que queria e onde encontrava. Ou seja, no máximo umas 20h45 eu cheguei na fila. O que será que fez com que eu chegasse em casa 21h35, se demora só 5min. de bicicleta do mercado até em casa? Fui pra fila. O problema é que o Caixa que não é rápido, é caixa lerdo. E tem uma coisa que é pior. O Caixa Rápido, que é pra pessoas com até 20 itens estava com uma grande fila. Claro, pensei, to com mais de 20 itens mas vou entrar nessa fila que tem pouca gente. O problema é quando tem pouca gente, mas todas esqueceram o cérebro em casa. Primeiro: todas tinha menos de 20 itens. A fila do Caixa Rápido estava grande, mas o suficiente pra andar mais rápida que a nossa (só tinha 3 "pessoas" na minha frente; cada um formado por uma dupla de idiotas). Outra, lá é fila grande mas cada pessoa tem meia dúzia de coisas, o caixa é mais rápido e outra, são uns 20 caixas só pra atender aquelas pessoas. Mas os infelizes com meia dúzia de coisinhas tem que ir pro caixa normal, o caixa lerdo, onde a fila é menor. Vamos dupla por dupla que estava na minha frente: primeiro, devia ser mãe e filha (foram as que mais demoraram; quase meia hora). Elas tinham uns 10 itens. E umas 20 contas pra pagar!!!!!!! Foi aí que eu comecei a suspirar. Com fome, suada, fedendo. Demorava e demorava e eu nervosa. Fico muito nervosa quando estou com fome. Quando eu vi que elas não tinham quase nada de compras, mas milhares de contas pra pagar (oh, tia, vai na lotérica ou no caixa exclusivo pra contas!!!) eu comecei a arranhar as unhas no caixa e fiz a cara de "vou matar um". Foi aí que as pessoas que estavam atrás devem ter começado a ficar com medo da louca fedendo a suor, com roupa de ginástica. Pelo menos estou malhando os músculos, se eu surto e alguém chama os seguranças, tenho certeza que acerto um soco bem doído em algum dos malas na minha frente. Enfim, continuando com as duplas. Muito tempo depois... a mulher terminou de pagar as contas e as próximas eram duas adolescentes. Cada uma com UMA caixa de BIS. Mas não basta elas entrarem no Caixa lerdo pra comprar BIS. Cada uma pagou separado e pior, no cartão de Crédito!!!! Dá vontade de matar, né? Mas quer ver que fica pior. Além de comprar, cada uma UMA caixa de BIS no seu cartão, elas ainda foram recarregar celular!!!! R$10, cada uma. Ou seja, duas malas, cada uma passou duas vezes cada cartão (o caixa rápido recarrega celular!!!! e passa BIS, PORRA!!!!) E eles viam que a fila não andava e a outra do caixa rápido andava mas continuavam ali, sem mudar de fila, acho que devia ser só pra ver se eu surtava mesmo. Depois de uns 10 minutos das duas malas juvenis, vem os amigos Déb & Lóide. Eles passaram 6 itens. Poderia ter sido rápido, mas não foi. Era o meu dia. Eles passaram os 6 itens, entre eles uma garrafa de RUM. Na hora de pagar, TICKET alimentação. É óbvio (e só eles não sabem disso) que não pode pagar bebida alcóolica com TICKET Alimentação. O casal atrás de mim "os caras querendo pagar cachaça com Ticket. Tá, os caras tão sem grana pra beber, só tem o Ticket. Lá vai o caixa chamar o fiscal pra cancelar o item. Bem, dai quem vai em mercado conhece a novela. E lá se passaram mais muitos minutos, até o fiscal vir, até cancelar etc etc etc. Finalmente chegou a minha vez. Por sorte,não matei ninguém (mas que deu vontade deu). Falei entre dentes, quase rosnando, só com monossilábicas, embalei minhas compras de qualquer jeito, passei correndo e finalmente vim para casa. 21h35. Com raiva. Fedendo. Tomei banho e só vim escrever isso aqui e ainda não fui comer porque coloquei meus Keep Coolers pra gelar, porque hoje eu PRECISO beber alguma coisa. É assim quando a gente fica com vontade de matar um.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AVISO - Para quem visitar a minha casa!

AVISO - Para quem visitar a minha casa!
texto de Virgínia Matos


Lembre-se que o meu animal de estimação vive aqui. Você não!
Se não quiser pêlos na sua roupa, fique longe dos móveis!
Sim, os animais têm hábitos desagradáveis. Eu também, assim como você. E daí?!?
CLARO que ele tem cheiro. E já percebeu como nós, humanos, cheiramos ao final de um dia de trabalho? Coloque-se no lugar de alguém que tem um olfacto 400 vezes mais sensível que o seu e mesmo assim o recebe com explosões de carinho no regresso ao lar.
É da natureza dele tentar cheirá-lo. Por favor, sinta-se à vontade para cheirá-lo também.
Se existisse algum risco de ser atacado, eu não o deixaria aproximar-se de si. Porém, não posso impedi-lo de responder a agressões, às quais você possa ter até em pensamento, seja para com ele, seja para comigo a quem devota fidelidade. Os animais pressentem, não duvide...
Você já beijou alguém e recebeu em troca um empurrão? Se o meu animal tentar lambê-lo é porque aprova a sua presença e quer demonstrar-lhe isso carinhosamente. Lembre-se que eles não mentem ou fingem...
O meu animal recebe cuidados veterinários, alimentação saudável e cuidados higiénicos. A sua companhia é altamente recomendada pelos médicos, e a maioria das doenças que contraímos ao longo da vida são-nos transmitidas por outros seres humanos!
Há diversas situações, nas quais é preferível estar com um animal do que com uma pessoa. Pois podemos confiar inteiramente na sua fidelidade e sinceridade!
Para alguns, ele é um simples animal. Para mim, é um filho adoptivo que ainda gatinha e não consegue falar. Para mim, isso não é nenhum problema. Para si é?

Por último, se não quiser ser recebido por patinhas e caudas a abanarem... NÃO ENTRE!
Se não gosta de narizes molhados e línguas geladas... NÃO ENTRE!
Se não quiser tropeçar em brinquedos espalhados... NÃO ENTRE!
Se acha que uma casa deve estar sempre a cheirar a perfume... NÃO ENTRE!

Mas se não se importar com nada disso, volte sempre que quiser e será bem-vindo! Até pelo meu animal! Eles são mais sensíveis que nós, bastando aproximarem-se para distinguir com clareza, verdadeiros amigos, de pessoas falsas...

domingo, 27 de novembro de 2011

Mulheres "im"perfeitas

Recebi este texto pela segunda vez, atribuído à Martha Medeiros. Quem lê Martha sabe que o texto é a cara dela mesmo, e eu adoro ler Martha Medeiros. Mas não achei nenhuma referência que diga que não é dela, nem nada que diga certo que é. De qualquer forma é muito bom. E como foi a segunda vez que recebi, resolvi colocar no blog ao invés de repassar. Aí vai:

'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros...

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias..

Cinco dias!

Tempo para uma massagem...

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'

Martha Medeiros - Jornalista e escritora

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Casa Arrumada - Lena Gino

Texto adorável que recebi por e-mail.


CASA ARRUMADA



CASA ARRUMADA É ASSIM: UM LUGAR ORGANIZADO, LIMPO, COM ESPAÇO LIVRE PRA CIRCULAÇÃO E UMA BOA ENTRADA DE LUZ.
MAS CASA, PRA MIM, TEM QUE SER CASA E NÃO UM CENTRO CIRÚRGICO, UM CENÁRIO DE NOVELA.
TEM GENTE QUE GASTA MUITO TEMPO LIMPANDO, ESTERELIZANDO, AJEITANDO OS MÓVEIS, AFOFANDO AS ALMOFADAS...
NÃO, EU PREFIRO VIVER NUMA CASA ONDE EU BATO O OLHO E PERCEBO LOGO: AQUI TEM VIDA...
CASA COM VIDA, PRA MIM, É AQUELA EM QUE OS LIVROS SAEM DAS PRATELEIRAS E OS ENFEITES BRINCAM DE TROCAR DE LUGAR.
CASA COM VIDA TEM FOGÃO GASTO PELO USO, PELO ABUSO DAS REFEIÇÕES FARTAS, QUE CHAMAM TODO MUNDO PRA MESA DA COZINHA.
SOFÁ SEM MANCHA? TAPETE SEM FIO PUXADO? MESA SEM MARCA DE COPO? TÁ NA CARA QUE É CASA SEM FESTA.
E SE O PISO NÃO TEM ARRANHÃO, É PORQUE ALI NINGUÉM DANÇA.
CASA COM VIDA, PRA MIM, TEM BANHEIRO COM VAPOR PERFUMADO NO MEIO DA TARDE.
TEM GAVETA DE ENTULHO, DAQUELAS QUE A GENTE GUARDA BARBANTE, PASSAPORTE E VELA DE ANIVERSÁRIO,TUDO JUNTO...
CASA COM VIDA É AQUELA EM QUE A GENTE ENTRA E SE SENTE BEM VINDA.
A QUE ESTÁ SEMPRE PRONTA PROS AMIGOS, PROS NETOS, PROS VIZINHOS...
E NOS QUARTOS, SE POSSÍVEL, TEM LENÇÓIS REVIRADOS POR GENTE QUE BRINCA OU NAMORA A QUALQUER HORA DO DIA.
CASA COM VIDA É AQUELA QUE A GENTE ARRUMA PRA FICAR COM A CARA DA GENTE.
ARRUME A SUA CASA TODOS OS DIAS...
MAS ARRUME DE UM JEITO QUE LHE SOBRE TEMPO PRA VIVER NELA...
E RECONHECER NELA O SEU LUGAR.
(Fonte: http://mundoparalelog.blogspot.com/)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 de setembro. Onde estão os terroristas?

Em meio a tanta apelação que vejo na telinha do "Plim Plim" que diz ter tudo a ver conosco, me revolto e resolvo falar um pouco sobre o 11 de setembro. O que vemos naquele canal? Norte-Americanos choram os seus 2.900 mortos, homenageiam, fazem lá seus shows de luzes... Mas do show de horrores que foram as duas guerras que eles geraram, curiosamente a TV Plim Plim não fala nada. Os motivos pelo qual se cala todos conhecem... começam lá na ditadura e se estendem até os dias de hoje. Código de Hamurabi multiplicado por 300, é isso que foi o 11 de setembro.
Nada mais de se esperar de um país que vive da exploração de outros países, que ainda aceita a pena de morte e que sem dúvida, ainda é um dos maiores terroristas do mundo.
Indiferente de propriedade, o único canal no qual vi, nesta proximidades do 11 de setembro, uma postura crítica com relação ao fato, foi na Record e elogio isso.
A reportagem falava sobre os horrores da guerra ao terror e de todos os crimes contra os Direitos Humanos praticados pela grande potência e na irracionalidade desta guerra que se dizia contra o terror mas que não fez nada mais que praticar terror em nome da ganância desmedida, pelo ouro negro que correm no subsolo, como todos também sabe. Mas vamos aos números trazidos pela reportagem: organizações de Direitos Humanos e várias fontes, somam que o número de mortos somando as duas guerras, chega a próximo dos 900 mil, entre soldados (iraquianos, afegãos, norte-americanos) e civis. Isso mesmo, 900 mil!!! 300 vezes mais do que os mortos nas somas dos atentados aos EUA. É como se uma vida de um cidadão norte-americano valesse 300 vezes mais do que a de um Iraquiano, Afegão ou mesmo Soldado americano. Sim, porque só o número de soldados norte-americanos mortos no Iraque é muito maior do que o número de pessoas mortas nos ataques.
Enfim, o número de atrocidades e terrorismos praticados pelos norte-americanos nessas duas guerras vai longe. A reportagem trazia o caso de 12 soldados norte-americanos que estão sendo julgados. Eles tinham um grupo de extermínio de civis: saiam atirando em civis por diversão. Além disso, os estupros, torturas, violações, ataques com bombas em alvos civis, Guantanamo... vai longe o terrorismo daqueles que tentaram enganar o mundo como salvadores da democracia ocidental contra o terror do oriente médio.
Desta forma, pra não falar da guerra e do fracasso da mesma, de tudo que todo mundo sabe e não tem como esconder, a TV Plim Plim mostra, de forma comovente e emocionada a dor daqueles que perderam lá os seus 2.900 mortos; aqueles que perderam 900 mil vidas, esses continuam invisíveis.

"Nunca vimos o fogo e o fume, nunca sentimos o odor do sangue, nunca nos crusazamos com os olhares atorrizados das crianças cujo os pesadelos serão doravante assombrados pelo ruído dos mísseis lançados por terroristas invisíveis, conhecidos com o nome de Americanos"
Martin Kelly, publisher of a nonviolence website - Tradução: Octopus (http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1562496.html)

Que Deus abençoe a América e as suas bombas

Quando eles bombardearam a Coreia, o Vietnam, o Laos, o Camboja, El Salvador e a Nicarágua, eu não disse nada, não era comunista.

Quando eles bombardearam a China, o Guatemala, a Indonésia, Cuba e o Congo, eu não disse nada, não estava ao corrente.

Quando eles bombardearam o Libano e Granada, não disse nada, não percebia nada.

Quando eles bombardearam o Panamá, não disse nada, não era traficante de droga.

Quando eles bombardearam o Iraque, o Afeganistão, a Somália e o Iemen, não disse nada, não era terrorista.

Quando bombardearam a Jugoslávia e a Líbia por razões "humanitárias", não disse nada, parecia ser por uma boa causa

Quando eles vieram bombardear-me, não havia ninguém para me defender. De qualquer maneira não faz mal, dado que já estava morto.

William BLUM




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Refrigerante Zero e a enganação (Dá Zero pra ele!!!)

Hoje no restaurante vi uma menina bastante gorda com um prato bastante cheio (bastante mesmo; basicamente só carboidratos e carnes; umas folhas de alface meio perdidas pra dar uma cor). Não tenho nada contra pessoas gordas; claro, eu acho importante ter saúde, mas não sou afeita às dietas; meus exames sempre muito bom respondem por mim e não uma gordurinha aqui, uma celulite a-co-lá. Mas voltando a menina muito gorda. Cada um escolhe viver como quer, mas o que me chamou atenção foi que com o peso dela, com o prato de mais de um quilo de comida, ela levava a mão uma Coca Cola Zero. Isso mesmo!!! Claro, uma Coca Zero vai auxiliar muito a saúde dela. Penso será que realmente tem maluco que acredita nessa baboseira de Coca Zero? Comem pra caramba, ou comem pouquinho acompanhado de Coca Zero, porque tem 0 calorias. E o resto? O gás? O líquido com a comida? As outras tantas químicas junto com o refrigerante? Ou será que gostam desse negócio com gosto de água suja? Ah, se é pra esculhambar, pelo menos tenham a dignidade de beber uma Coca comum; se vai fazer mal mesmo; não disfarcem um prato de um quilo de comida com uma Coca Zero!!!
Teve uma história, quando eu tava na faculdade, que sempre me indignou; foi logo que lançaram a baboseira do Refrigerante Zero (zero benefício à saúde, como qualquer refrigerante). Fui almoçar com uma colega, que estava fazendo dieta acompanhada por uma nutricionista. A nutricionista dela a aconselhou: se tiver muita vontade de tomar algo junto com a comida (erro 1) tome uma Coca Zero (erro 2), só não tome um suco de laranja que é muito calórico (erro 3). Vai a PTQP@##@#@##@@@##@!!!!! Sim, porque Coca Cola faz muito melhor a saúde, ainda mais a Zero, do que a laranja. Na vida só o que contam são as calorias, pensam os viciados na tabelinha. Ser saudável é emagrecer, tomando Coca Zero, viram, e não suco de laranja. Laranja não, ela tem calorias!!!! brrrrrrrruuuuuu (fantasma) calorias!!!!
Bom, não se deve beber nada com a comida, a gente cansa de ouvir isso... mas se der aquela vontade, inevitável, já que vai estar fazendo o que não pode, se não quiser calorias, beba água, se não se importar com algumas a mais, beba um suco natural, mas peloamordedeus beba algo saudável!!! Coca Zero porque não tem caloria é enganação, ouviram, enganação!!!!!! Não caiam numa dessas. Essa nutricionista de minha colega devia ser cassada, deve ter comprado o diploma, ou alguma anoréxica neurótica, sei lá.
Mas é isso, meu protesto contra a enganação dos refrigerantes ZERO!!! DÁ ZERO PRA ELE!!!
Abaixo, um texto interessantezinho que recebi um dias desses:
Nutricionista lista quais são os 10 piores alimentos para o corpo humano
Neste caso, eles engordam e podem matar
12 de abril de 2011 | 13:06

10º lugar: Sorvete. Apesar de existirem versões mais saudáveis que os tradicionais sorvetes industrializados, a nutricionista Michelle Schoffro Cook adverte que esse alimento geralmente possui altos níveis de açúcar e gorduras trans, além de corantes e de saborizantes artificiais, muitos dos quais possuem neurotoxinas – substâncias químicas que podem causar danos no cérebro e no sistema nervoso.

9º lugar: Salgadinho de milho. De acordo com Michelle, desde o surgimento dos alimentos transgênicos, a maior parte do milho que comemos é um “Frankenfood”, ou “comida Frankenstein”. Ela aponta que esse alimento pode causar flutuação dos níveis de açúcar no sangue, levando a mudanças no humor, ganho de peso e irritabilidade, entre outros sintomas. Além disso, a maior parte desses salgadinhos é frita em óleo, que vira ranço e está ligado a processos inflamatórios.

8º lugar: Pizza. A nutricionista Michelle destaca que nem todas as pizzas são ruins para a saúde, mas a maioria das que são vendidas congeladas em supermercados está cheia de condicionadores de massa artificiais e conservantes. Feitas com farinha branca, essas pizzas são absorvidas pelo organismo e transformadas em açúcar puro, causando aumento de peso e desequilíbrio dos níveis de glicose no sangue.

7 º lugar: Batatas fritas. Contêm não apenas gorduras trans, que já foram relacionadas a uma longa lista de doenças, mas também uma das mais potentes substâncias cancerígenas presentes em alimentos: a acrilamida, que é formada quando batatas brancas são aquecidas em altas temperaturas. Além disso, a maioria dos óleos utilizados para fritar as batatas se torna rançosa na presença do oxigênio ou em altas temperaturas, gerando alimentos que podem causar inflamações no corpo.

6 lugar: Salgadinhos de batata. Além de causarem todos os danos das batatas fritas comuns e não trazerem nenhum benefício nutricional, esses salgadinhos contêm níveis mais altos de acrilamida, que também é cancerígena.

5º lugar: Bacon. Segundo a nutricionista, o consumo diário de carnes processadas, como bacon, pode aumentar o risco de doenças cardíacas em 42% e de diabetes em 19%. Um estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, descobriu ainda que comer 14 porções de bacon por mês pode danificar a função pulmonar e aumentar o risco de doenças ligadas ao órgão

4º lugar: Cachorro-quente. Michelle cita um estudo da Universidade do Havaí, também nos EUA, que mostrou que o consumo de cachorros-quentes e outras carnes processadas pode aumentar o risco de câncer de pâncreas em 67%. Um ingrediente encontrado tanto no cachorro-quente quanto no bacon é o nitrito de sódio, uma substância cancerígena relacionada a doenças como leucemia em crianças e tumores cerebrais em bebês. Outros estudos apontam que a substância pode desencadear câncer colorretal

3º lugar: Donuts (rosquinhas). Entre 35% e 40% da composição dos donuts é de gorduras trans, “o pior tipo de gordura que você pode ingerir”, alerta a nutricionista. Essas substâncias estão relacionadas a doenças cardíacas e cerebrais, além de câncer. Para completar, esses alimentos são repletos de açúcar, condicionadores de massa artificiais e aditivos alimentares, e contêm, em média, 300 calorias cada.

2º lugar: Refrigerante. Michelle conta que, de acordo com uma pesquisa do Dr. Joseph Mercola, uma lata de refrigerante possui em média 10 colheres de chá de açúcar, 150 calorias, entre 30 e 55 mg de cafeína, além de estar repleta de corantes artificiais e sulfitos. “Somente isso já deveria fazer você repensar seu consumo de refrigerantes”, diz a nutricionista. Além disso, essa bebida é extremamente ácida, sendo necessários 30 copos de água para neutralizar essa acidez, que pode ser muito perigosa para os rins. Para completar, ela informa que os ossos funcionam como uma reserva de minerais, como o cálcio, que são despejados no sangue para ajudar a neutralizar a acidez causada pelo refrigerante, enfraquecendo os ossos e podendo levar a doenças como osteoporose, obesidade, cáries e doenças cardíacas.

1º lugar: Refrigerante Diet. “É a minha escolha para o pior alimento de todos os tempos”, diz Michelle. Segundo a nutricionista, além de possuir todos os problemas dos refrigerantes tradicionais, as versões diet contêm aspartame, que agora é chamado de AminoSweet. De acordo com uma pesquisa de Lynne Melcombe, essa substância está relacionada a uma lista de doenças, como ataques de ansiedade, compulsão alimentar e por açúcar, defeitos de nascimento, cegueira, tumores cerebrais, dor torácica, depressão, tonturas, epilepsia, fadiga, dores de cabeça e enxaquecas, perda auditiva, palpitações cardíacas, hiperatividade, insônia, dor nas articulações, dificuldade de aprendizagem, TPM, cãibras musculares, problemas reprodutivos e até mesmo a morte

“Os efeitos do aspartame podem ser confundidos com a doença de Alzheimer, síndrome de fadiga crônica, epilepsia, vírus de Epstein-Barr, doença de Huntington, hipotireoidismo, doença de Lou Gehrig, síndrome de Lyme, doença de Ménière, esclerose múltipla, e pós-pólio. É por isso que eu dou ao Refrigerante Diet o prêmio de Pior Alimento de Todos os Tempos”, conclui.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quem quiser que conte um conto III: Grande Edgar

Grande Edgar
Luís Fernando Veríssimo

Já deve ter acontecido com você.

- Não está se lembrando de mim?

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, o curto, grosso e sincero.

- Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “Não” seco pode até insinuar uma reprimenda à sua pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos não entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem.

Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

- Não me diga. Você é o… o…

“Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com a sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

- Desculpe, deve ser a velhice, mas…

Este também é um apelo à piedade. Significa “Não torture um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!” É uma maneira simpática de dizer que você não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve à insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.

E há o terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.

- Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso. Há provas estatísticas que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

- Há quanto tempo!

Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

- Então me diga quem eu sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

- Pois é.

Ou:

- Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas do meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como “jabs” verbais.

- Como cê tem passado?

- Bem, bem.

- Parece mentira.

- Puxa. (Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)

Ele está falando:

- Pensei que você não fosse me reconhecer…

- O que é isso?!

- Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.

- Eu esquecer você? Logo você?

- As pessoas mudam. Sei lá.

- Que idéia! (É o Ademar! não. o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O… o… como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)

- É incrível como a gente perde contato.

- É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.

- Cê tem visto alguém da velha turma?

- Só o Pontes.

- Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes…)

- Lembra do Croarê?

- Claro!

- Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.

- Velho Croarê! (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)

- Rezende…

- Quem?

Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.

- Não tinha um Rezende na turma?

- Não me lembro.

- Devo estar confundindo.

Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado.

Ele fala:

- Sabe que a Ritinha casou?

- Não!

- Casou.

- Com quem?

- Acho que você não conheceu. O Bituca.

Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?

- Claro que conheci! Velho Bituca…

- Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque.

- E Não me avisaram nada?!

- Bem…

- Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?!

- É que a gente perdeu contato e…

- Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.

- É…

- E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Vocês é que esqueceram de mim!

- Desculpe, Edgar. É que…

- Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam… (Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”)

- Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?

- Certo, Edgar. E desculpe, hein?

- O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.

- Isso.

- Reunir a velha turma.

- Certo.

- E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca…

- Bituca.

- E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?

- Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quem quiser que conte um conto II: Flor, Telefone, Moça

FLOR, TELEFONE, MOÇA

De Carlos Drummond de Andrade - Livro: Contos de Aprendiz
(imagem de lauravive.blogspot.com)
Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

– Sei de um caso de flor que é tão triste!

E sorrindo:

– Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve Ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, comtemplando túmulo. Coitada!

– No interior isso não é raro...

– Mas a moça era de Botafogo.

– Ela trabalhava?

– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma.. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve Ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.

– Que flor?

– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Nào se pensa mais nisso.

Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.

– Aloooô...

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:

– O quê?

Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cnco minutos depois, o telefone chamava de novo.

– Alô.

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.

– Está aqui comigo, vem buscar.

No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:

– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:

– Vem buscar, estou te dizendo.

– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.

– Mas quem está falando aí?

– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.

– Diga o nome, senão eu não dou.

– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.

O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.

Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.

– Alô!

– Quede a flor...

Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:

– Olhe, vire a chapa, já está pau.

– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.

– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?

E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de Ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você está vendo que a moça começou a Ter medo.

– E eu também.

– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.

A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam "a voz".

– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.

– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.

Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?

O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.

Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a "voz", que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais "você me dá minha flor", mas "quero minha flor", "quem furtou minha flor tem que restituir", etc. Diálogo com essas pessoas a "voz" não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a "voz" não dava explicações.

Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...

– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?

– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...

O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.

Mas a "voz" não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?

– Mas, e a moça?

– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Quem quiser que conte um conto I: "Para uma avenca partindo"

Para Uma Avenca Partindo
Caio Fernando Abreu




Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver
as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer
atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia
destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sócrates e o Consumo


SÓCRATES E O CONSUMO
Autor: Frei Betto

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
- Não foi à aula?
Ela respondeu:
- Não, tenho aula à tarde.
Comemorei:
- Que bom; então, de manhã, você pode brincar, dormir até mais tarde...
- Não, retrucou ela, tenho tanta coisa de manhã...
- Que tanta coisa?, perguntei.
- Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando:
- Que pena, a Daniela não disse: Tenho aula de meditação!
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.
Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto? "Olha uma maravilha, não tinha uma celulite!
Mas como fica a questão da subjetividade?
Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!".O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:amizades, autoestima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.
Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping Center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeirapelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelascapelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico:
"Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: - Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"

domingo, 8 de maio de 2011

Leonardo Boff

FEZ-SE VINGANÇA, NÃO JUSTIÇA

Leonardo Boff1

Alguém precisaria ser inimigo de si mesmo, e contrário aos valores
humanitários mínimos, se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda, do
11 de setembro de 2001, em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável,
que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao
terrorismo, se tenha transformado, ele mesmo, num Estado terrorista. Foi o que fez
Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns
direitos, que eram apanágio do país. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o
Afeganistão e contra o Iraque, onde devastou uma das culturas mais antigas da
humanidade na qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão
de deslocados.
Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se
produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman, de Melbourne Beach,
da Flórida, que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do
Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta
ao Presidente: ”Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso
Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos
de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas
odiosas”.
Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa
Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews, de 28/02/2010,
e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um
ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em
seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo
quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial, de
manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha
conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por
saúde e decência se demitiu do cargo.
Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da
CIA, também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente
ano, na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases
militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam
raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo
Galeano “As veias abertas da América Latina” para ilustrar as barbaridades que
os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter
imperial dos Governos, fundado no uso da inteligência que recomenda golpes
de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se
demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três
tomos “Blowback” (retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência,

Teólogo, filósofo autor de Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz, Vozes 2009.

as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como
o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual
situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden.
Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos
vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um
método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao
seu esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.
Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do
crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um “deus”
determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético
universal de “não matar” e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o
julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Sadan Hussein, do Iraque,
com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros
acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual
Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão,
sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se seqüestrou o cadáver e o
lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de
enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam
de ser humanos.
Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável. ”Minha é a
vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos
sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a
necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Terror x Terror

Em meios a Obamas e Osamas.

Não podemos negar que a morte de Osama Bin Laden foi um marco na história contemporânea.
Mas que guerra mesmo é essa?
O que vemos é uma guerra sem vencedores (com excessão da indústria bélica que lucra seus bi, tri lhões). É uma guerra do terror contra o terror. Uma guerra sem causa, sem ideais, onde dominam o fanatismo e o financeiro. Terror x terror. De um lado, um país imperialista, de outro uma organização fundamentalista. De um lado a dominação preconceituosa, de outro o fanatismo preconceituoso. A comemoração da morte, por ambos os lados, o ideal torna-se "matar ao próximo". Os direitos humanos perdem, a humanidade perde nessa guerra vergonhosa. Quem ganha é o medo, o terror, a força bruta.
Mais uma morte entre tantas. Terror, terror, terror... O filme "Guerra ao Terror", norte-americano, é uma auto-crítica: qual terror? O que fazemos (EUA) ou o que eles fazem?
Neste momento, diante da vergonhosa comemoração estadunidense diante da morte, nós, vergonhosamente baixamos a cabeça e choramos. Não por aquele que foi morto e que há tantos matou, mas pela humanidade que mata e morre, em nome da dominação e do preconceito. Em meio a tanta dor e loucura, a paz ainda perece, mostrando-se um sonho distante.







segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tudo começa no tapinha

O que ensinamos às crianças, aos filhos quando damos aquele tapinha, aquela chinelada? Disciplina? Diálogo? Não, medo! Ensinamos: não faz isso, se não te bato. Ensinamos que a forma de conseguir o que queremos é através da violência. Sim, um tapinha também é violência. E assim, reproduzimos a violência de nossa sociedade. Por que, às vezes, algumas pessoas dizem não conseguir se conter, e acabam batendo em seus filhos? Porque foram criadas assim. A resposta mais comum é: "meus pais me bateram e não sou uma pessoa ruim por isso". Ruim, não. Mas reprodutora da violência por causa disso, sim. Reprodutora de forma inconsciente. O tapinha pode até não doer na hora, mas vai doer a toda sociedade, legitimando o poder daquele que "manda" através da violência física. Você apanhou, não se tornou uma pessoa ruim, mas se tornou uma pessoa que reproduz a violência nos seus filhos. Seus filhos, talvez reproduzam a violência. Os filhos de seus filhos, e assim por diante. Num desses momentos, numa dificuldade de medir a violência, um deles pode bater na mulher, pode se envolver numa briga de trânsito, numa briga em boate, numa briga na escola. E o que você poderá fazer ou dizer? Se foi com você mesmo que ele aprendeu que é com "um tapinha" (ou mais, quando este não é suficiente) que se resolvem as coisas? Tudo começa com um tapinha. Pense.

domingo, 10 de abril de 2011

Presente e Futuro

Algumas vezes a gente fica tão preocupado com o futuro que isso acaba afetando mais o presente que o próprio futuro.

Calcular as contas pra pagar, o tempo que temos pra fazer as coisas, o tempo que nos vai faltar... tudo isso às vezes só gera dor de cabeça e nos cega para viver o hoje, aproveita-lo bem, viver o tempo do agora.

Tenho uma tendência a escrever o mais do mesmo, mas se a gente diz tanto e nunca nada muda, só tem duas possibilidades: ou está sendo dito errado ou não está sendo ouvido.

O futuro é algo incerto demais... não é ruim planejar, calcular, imaginar... isso só não pode virar o único guia do presente... Temos que saber que o presente nem sempre precisa de um guia... muitas vezes é impulso, instante, desatino, sentimento, intuição, acima de tudo. O resto, que venha como tiver que vir.

O amanhã será determinado pelo que vivemos hoje, afinal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Dr. Mourão

Fala do Dr. Antônio Mourão Cavalcanti no I Encontro Pacto pela Vida – Maracanaú- CE

Sintetizo aqui, com minhas palavras, o que foi dito pelo Dr. Mourão no referido encontro que aconteceu no dia 24 de fevereiro de 2011.
Discorrendo sobre a prevenção do uso de drogas voltada para jovens, este renomado psiquiatra, foi bastante pontual. Em primeiro lugar, segundo ele, há 3 coisas que escolas e educadores não devem jamais fazer, porque não funcionam, quando querem trabalhar a prevenção: 1°) Palestra: isso é coisa pra adulto, e não pra adolescente. Adolescente vai em palestra porque é obrigado e fica geralmente lá pensando em outra coisa; não fixa nada do que é dito. O máximo que vai guardar é o que a professora “ameaçar”: presta atenção porque vai cair na prova. Passa a prova, ele já esqueceu. 2º) Palestra com ex-usuário: isso é um incentivo. Todo jovem é prepotente: eles vão ver a pessoa e vão pensar: o cara ta aí, ta bem; se ele conseguiu sair, porque eu não posso. 3º) Mostrar as drogas em feiras de Ciências: onde que se conseguiu estas drogas se não foi com o próprio traficante?
Segundo ele, os jovens não entram nas drogas achando que vão morrer. Eles entram para buscar a parte boa, o prazer. Todo jovem é prepotente e acha que tem controle sobre si mesmo. Se acontece algo errado com ele ou com alguém é porque “vacilou”. Então, não adiante dizer “Não use drogas. Faz mal. Mata”. É necessário buscar alternativas prazerosas, que mostrem as coisas boas da vida, que valorizam o jovem e suas habilidades. Os jovens não precisam de conselhos, eles precisam de estímulos.
É preciso também ser amigo dos jovens, ouvir o que eles tem a dizer, ter uma aproximação aberta e sincera. Se chegares como quem quer doutriná-lo, ele não irá ouvir. Primeiro torna-se amigo, depois ele ouvirá tudo que disser. Todavia, sem grandes “sermões”, mas ações cotidianas, pequenos gestos, conversas amigáveis, etc.
Neste tempo, ele conta a seguinte história ilustrativa: na antiga Paris, um homem caminhava e avistou um que vinha com uma carroça carregando pedras. O primeiro perguntou: o que você está fazendo? Ao que o outro respondeu, mal humorado: carregando pedras, não está vendo? E foi-se. Logo em seguida, vinha outro homem também carregando uma carroça com pedras, e aquele que estava caminhando, novamente perguntou: o que você está fazendo, e o outro respondeu, orgulhoso: construindo uma catedral. Era a Catedral de Notre-Dame, de Paris. Então, ele diz a platéia que se perguntam, o que você está fazendo e você responde “combatendo as drogas”, você é um “besta” como primeiro carregador. Não adiante se iludir, as drogas não tem fim e nunca terão. Você deve responder, quando lhe perguntarem “Eu estou lutando a favor da vida”.
E é assim também com a juventude. Ela precisa ser estimulada e valorizada. Não precisamos de jovens que carreguem pedras, e sim de jovens que construam catedrais.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Avatar é aqui!

Eu já havia feito uma comparação breve do filme Avatar e a realidade, principalmente sobre o caso de Belo Monte. Agora, recebi este artigo bem interessante e mais aprofundado realizando esta comparação.

Fonte: http://www.ecodebate.com.br/2010/12/13/avatar-e-aqui-povos-indigenas-grandes-obras-e-conflitos-em-2010-artigo-de-rosane-f-lacerda/

Avatar é aqui! Povos indígenas, grandes obras e conflitos em 2010, artigo de Rosane F. Lacerda [1]

Publicado em dezembro 13, 2010 by HC

O presente artigo integra o Relatório Direitos Humanos no Brasil 2010.

Nos conflitos envolvendo o setor elétrico, o apelo ao “desenvolvimento” como justificativa para as perdas a serem suportadas pelos povos indígenas pouco difere do quadro vivenciado no tempo do regime militar. Ali, o boom desenvolvimentista devastava centenas de grupos indígenas, sobretudo, os isolados. A diferença é que o Brasil de hoje possui um marco constitucional com importantes princípios e instrumentos protetivos aos direitos indígenas.

Tentar efetuar um balanço e uma análise em poucas linhas de uma realidade tão rica e complexa quanto à relativa aos direitos humanos dos povos indígenas é algo que exige imenso esforço de síntese, além da natural busca por dados fidedignos. Devido aos estreitos limites desta obra coletiva, trazemos aqui apenas um apanhado geral sobre os acontecimentos mais relevantes do ano, tendo como fontes de dados publicações especializadas e matérias jornalísticas disponibilizadas na internet.

Em 2010, além dos tradicionais conflitos envolvendo a posse e demarcação das terras indígenas, destacaram-se aqueles relativos a grandes projetos infraestruturais ligados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, ou a interesses econômicos regionais e locais com incidência naquelas terras.

1. Povos indígenas vs. grandes obras

Obras em curso e o anúncio de projetos ligados ao setor elétrico com incidência nas terras indígenas foram responsáveis, neste ano, por grande parte das insatisfações manifestadas pelas lideranças indígenas e das tensões com setores do governo. O ano mal havia começado e a Terra Raposa Serra do Sol foi surpreendida com o anúncio da liberação, pelo governo federal, dos recursos destinados aos estudos prévios à construção da Usina Hidrelétrica (UHE) do Contigo, em Roraima. Além de chamar a atenção para os previsíveis danos ambientais decorrentes da obra, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) denunciou a ausência de consulta às comunidades indígenas. Poucos dias depois, em fevereiro, os indígenas foram novamente surpreendidos, dessa vez com o anúncio do projeto de construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) nas terras indígenas São Marcos e Raposa Serra do Sol. Tal notícia recebeu fortes críticas do CIR, já que a prospecção fora feita sem autorização das comunidades indígenas[2].

Situada no rio Tocantins, a Usina Hidrelétrica do Estreito afetará os povos apinayé e krahô (TO), e krikati, gavião pukobiê, guajajara e tabajara (MA). Segundo o Consórcio Estreito Energia (Ceste), as obras “avançam em ritmo acelerado e já contam com mais de 85% do cronograma físico concluído”[3]. Audiência pública realizada em abril de 2010 revelou uma grande tensão envolvendo a população não indígena afetada pela obra, o que certamente aponta para problemas também vivenciados pelos indígenas. A história das construções de UHEs tem demonstrado que um dos principais impactos para as comunidades indígenas tem sido o aumento da pressão sobre seus territórios por parte das populações não indígenas também afetadas e em situação de abandono. Conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), essa situação ficou evidente durante a audiência pública.

Posta em funcionamento em dezembro de 2001, a Usina Hidrelétrica do Lageado, no rio Tocantins, gerou fortes impactos para a população indígena xerente. Em abril de 2010, os indígenas detiveram, na Terra Indígena (TI), um grupo de cinco servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) e um membro do Programa de Compensação Ambiental Xerente (Procambix). Segundo a imprensa, o objetivo dos índios era cobrar agilidade da Funai “na liberação de verbas de programas federais nas áreas de produção e infraestrutura provenientes de acordos de compensação ambiental” decorrente da UHE[4].

Em junho, no Mato Grosso, os Enawenê-nawê reagiram contra os impactos das onze PCHs no Rio Juruena – várias delas implantadas pelas empresas do ex-governador Blairo Maggi[5]. Os indígenas montaram acampamento na cidade de Sapezal, onde denunciaram o comprometimento da qualidade das águas do rio, que se tornaram barrentas e impróprias para o consumo, pondo em risco o seu modo de vida. Projetada para o rio Aripuanã, em Aripuanã (MT), a UHE de Dardanelos teve suas obras iniciadas em setembro de 2007. Em julho deste ano, cerca de trezentos indígenas de oito grupos étnicos diferentes[6] ocuparam o canteiro de obras, reivindicando “ações de reparação” pelos danos causados a um sítio arqueológico, além de programas de sustentabilidade.

O conflito de maior repercussão envolveu a UHE de Belo Monte. Projetada para o rio Xingu como a maior obra do PAC e a segunda maior do país, ela foi alvo de intensas mobilizações e batalhas judiciais no decorrer do ano. Em abril deste ano, duas grandes passeatas contrárias à obra ocorreram em Brasília (DF), reunindo indígenas, ribeirinhos, movimentos sociais e até o cineasta James Cameron e a atriz Sigourney Weaver (do filme Avatar). Em carta aberta, os caciques Bet Kamati Kayapó, Raoni Kayapó e Yakareti Juruna rejeitaram o projeto dizendo: “Nosso açougue é o mato, nosso mercado é o rio. Não queremos mais que mexam nos rios do Xingu (…)”. Em junho e agosto, em Altamira (PA), diversas manifestações contra a hidrelétrica reuniram centenas de atingidos e participantes dos movimentos sociais. Bastante preocupante é a situação dos grupos indígenas isolados que ocupam a região dos rios Xingu e Bacajá, cujas áreas de perambulação serão afetadas pelas obras[7]. Apesar da gravidade da situação, o governo federal seguiu afirmando que nenhuma terra indígena será afetada.

Outra fonte de tensão no período foram as obras do Complexo Hidrelétrico do Madeira (UHEs Jirau e Santo Antônio), em Rondônia. Além dos impactos às comunidades indígenas contatadas em torno da década de 1970 (kaxarari, urueu-wau-wau e pakaanova), as obras afetam, de modo particularmente preocupante, vários grupos indígenas isolados. Expedição realizada em dezembro de 2009 com participação da Funai, Sistema de Proteção da Amazônia (Sian) e organizações não governamentais teria concluído que as obras de Jirau, de tão próximas de alguns isolados (10 a 30km), teriam provocado a sua fuga. No Programa Básico Ambiental (PBA) da UHE de Jirau relativo à TI Uru-Eu-Wau-Wau, haveria, inclusive, o reconhecimento da “presença de indígenas isolados, como os parakuara e os jurureís, assim como dois grupos cujos nomes são desconhecidos”[8].

Por fim, no Nordeste, os povos indígenas do já combalido rio São Francisco, além de continuarem a enfrentar o projeto de transposição de suas águas, deparam-se, agora, com os projetos das UHEs de Riacho Seco e Pedra Branca (BA e PE), com barragens previstas para se localizar, respectivamente, entre os municípios de Curaçá (BA) e Santa Maria da Boa Vista (PE), e Orocó (PE) e Curaçá (BA), atingindo diretamente os povos truká (PE) e tumbalalá (BA). Os índios lançaram a campanha “Opará – Povos Indígenas em defesa do rio São Francisco”, e, em julho, em seminário na Terra Indígena Truká (Cabrobó, PE) sobre os impactos dos projetos do PAC, declararam a sua insatisfação com as obras e externaram preocupação com mais um possível foco de tensão: a possibilidade de instalação de uma usina nuclear na região[9].

2. Povos indígenas e conflitos territoriais

Conforme dados do Cimi, a situação jurídico-administrativa das terras indígenas no país em novembro de 2009 era a seguinte:

Situação das Terras Indígenas Quantidade
Registradas 366
Homologadas 35
Declaradas 60
Identificadas 20
A identificar 146
Sem providências 323
Reservadas/Dominiais 36
Total 988
No total, o ano de 2010 iniciou-se com cerca de 489 terras ainda aguardando o ato administrativo de reconhecimento da ocupação tradicional indígena. Tal número, por si só, já indica que a questão da demarcação das terras indígenas no Brasil continua longe de ser resolvida. No compasso de espera do cumprimento da norma constitucional que determina que tais territórios sejam objeto de demarcação, os conflitos surgem, multiplicam-se e se arrastam anos a fio. Aqueles que mais chamaram a atenção no decorrer do ano, até o presente momento, envolveram os tupinambá, da TI Serra do Padeiro, em Buerarema (BA); os Terena, da TI Cachoeirinha, em Miranda (MS); e os guarani-kaiowá, em Paranhos (MS) e Douradina (MS).

Em 19 de fevereiro, reagindo a agressões praticadas por fazendeiros ocupantes da terra indígena tupinambá (BA), os indígenas ocuparam imóveis ali incidentes, intensificando-se, daí, os atos de criminalização contra as suas lideranças. Na madrugada de 10 de março, a Polícia Federal (PF), sob a acusação de esbulho possessório e formação de quadrilha, prendeu os irmãos Babau (cacique) e Givaldo, posteriormente transferidos para o presídio de segurança máxima federal de Mossoró (RN). Em 3 de junho, uma terceira irmã, Glicéria, também era presa pela PF e levada com Eruthawã, seu bebê de dois meses, para o presídio de Jequié (BA). Glicéria retornava de um encontro com o presidente Lula, em Brasília. Os três irmãos e o bebê só foram libertados em 16 de agosto. O caso das agressões cometidas contra os tupinambá foi levado pelo Cimi e Justiça Global ao Relator Especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas, Sr. James Anaya[10].

No mês de maio, no município de Miranda (MS), o clima de tensão aumentou quando o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar de reintegração de posse à família do ex-governador Pedro Pedrossian sobre as terras das fazendas Petrópolis e Paratudal. A área havia sido retomada em outubro de 2009 pelos terena, que reivindicam o reconhecimento da ocupação tradicional indígena. Em 18 de maio, setenta homens da Polícia Federal e sessenta da Polícia Militar, com uso de cães, bombas de gás e balas de borracha, efetuaram o despejo dos oitocentos indígenas, que denunciaram: “os policiais já chegaram atirando e jogando bombas em meio a mulheres e crianças. Depois, deram-nos só vinte minutos para recolher tudo o que é nosso e sumir”. Os terena reivindicaram, em vão, um prazo para colher a mandioca, milho e feijão que haviam plantado no local[11].

Em agosto, os conflitos envolveram os guarani-kaiowá. Um grupo de cerca de cinqüenta indígenas, incluindo mulheres e crianças, retomou o seu tekohá (como é chamado o lugar onde se dão as condições de possibilidade do modo de ser guarani) localizado nas terras da fazenda São Luiz, em Paranhos (MS). Em 23 de agosto, lideranças indígenas passaram a denunciar que homens armados haviam cercado o acampamento, disparando tiros para o alto na tentativa de intimidar e forçar a saída dos índios. Três dias depois, o acampamento foi reforçado com a chegada de mais duzentos indígenas da região. Em setembro, o Cimi e a ONG inglesa Survival International[12] passaram a denunciar que os indígenas eram mantidos cercados no local, sem acesso à água, comida e atendimento médico, e sob constantes ameaças de homens armados contratados pelos fazendeiros. No mês de setembro, também no Mato Grosso do Sul, um grupo de cerca de oitenta indígenas kaiowá retomou um dos lotes que compõe a área reivindicada como tekohá, em Douradina. Os fazendeiros atearam fogo ao acampamento indígena e afirmaram que iriam permanecer no local e expulsar novamente os índios caso retornassem[13].

Comentários finais


Nos conflitos envolvendo o setor elétrico, o apelo ao “desenvolvimento” como justificativa para as perdas a serem suportadas pelos povos indígenas pouco difere do quadro vivenciado no tempo do regime militar. Ali, o boom desenvolvimentista devastava centenas de grupos indígenas, sobretudo, os isolados. A diferença é que o Brasil de hoje possui um marco constitucional com importantes princípios e instrumentos protetivos aos direitos indígenas. Possui, também, compromissos internacionais relativos à sua proteção. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, preconiza que os povos indígenas sejam sempre consultados “através de suas instituições representativas” em caso de “medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente” (art. 6.º, § 1, “a”). Entretanto, o descumprimento ao princípio da “consulta prévia” às comunidades indígenas tem sido a tônica nos casos aqui apontados, sob o falso argumento de que as suas terras só seriam afetadas caso as obras se situassem no seu interior.

São assim desconsiderados os impactos ambientais, sociais, econômicos e culturais que tais comunidades terão que suportar. Conflitos relativos à posse e demarcação de terras indígenas ocorreram em diversas regiões do país, mas os dados indicam que têm sido particularmente graves no Mato Grosso do Sul, onde a população indígena, confinada em minúsculas reservas ao longo da primeira metade do século 20, tem persistentemente lutado para recuperar os seus locais de origem. Estas comunidades têm sido atropeladas, agora, pelas ofensivas cada vez maiores do agronegócio e de seu projeto de exclusão e morte.

[1] Rosane F. Lacerda é advogada indigenista. Foi assessora jurídica do Conselho Indigenista Missionário de 1987 a 2005. É mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB), doutoranda em Direito na UnB, pesquisadora em Direitos Indígenas e professora-assistente de Direito Público na Universidade Federal de Goiás (UFG) – Campus Jataí (CAJ) e membro do grupo de pesquisa “O Direito Achado na Rua” (UnB).
[2] Folha de Boa Vista (RR), 2/2/2010.

[3] , acesso em 21/9/2010.

[4] Folha.com, 27/4/2010.

[5] “Complexo Hidrelétrico do Juruena ameaça a sobrevivência dos Enawenê-Nawê”, em . Acesso em 15/9/2010.

[6] “U.H.E Dardanelos em Aripuanã será a maior Hidrelétrica de Mato Grosso”, em . Acesso em 15/9/2010. Diário MS, Dourados, 26/7/2010.

[7] Belo Monte deverá inundar 516 km², e o desvio definitivo da Volta Grande do Xingu secará 1.006 km², desalojando milhares de famílias de Altamira, além de ribeirinhos e indígenas. (cf. Cimi, informe “Mundo que nos rodeia, n. 902, de 25/2/2010). Porantim, Brasília, abril de 2010, p.2; jun.-jul. 2010, p.5; ago. 2010, p. 12 e 13. Telma Monteiro, “Indígenas isolados ameaçados pelas hidrelétricas na Amazônia: Santo Antônio, Jirau e Belo Monte”, em . Acesso em 18/9/2010.

[8] Telma Monteiro, “Indígenas isolados ameaçados pelas hidrelétricas na Amazônia”, cit.

[9] Jornal do Commercio, Recife, 26/11/2008. Porantim, Brasília, janeiro-fevereiro de 2010. Cimi, informe n° 925, de 5/8/2010. Segundo a Eletronuclear, o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro apresentou ao presidente Lula, no âmbito do Plano Nacional de Energia (PNE) para até 2030, “a proposta de construção de mais quatro usinas nucleares no Brasil (…), sendo duas no Nordeste e outras duas no Sudeste” (
gov.br/tecnologia/index.php?idSecao= 2&idCategoria=21>, acesso em 25/8/2010).

[10] Porantim, Brasília, mar. 2010, p.4; ago. 2010, p.11.

[11] Caarapó News, 18/5/2010. Folha.com, 17/5/2010.

[12] Campo Grande News, 19/8/2010. No local, em outubro de 2009, outra retomada terminou num ataque de seguranças da fazenda São Luiz ao acampamento indígena, quando desapareceram os professores Rolindo e Genivaldo Verá. O corpo de Genivaldo foi encontrado. Rolindo continuou desaparecido. Diário MS, Dourados, 18/8/2010; 23/8/2010; 26/8/2010. Campo Grande News, 13/9/2010 e Capital News, Campo Grande, 15/9/2010.

[13] A Gazeta News, Amambai, 8/9/2010.

Artigo socializado pelo CIMI e publicado pelo EcoDebate, 13/12/2010