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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O despertar do pensamento sociológico

Este breve trabalho foi entregue no dia 01/07/2005, numa disciplina de sociologia, nos tempos da minha graduação e, trago aqui, basicamente sem revisão, como, curiosidade (pelo fato de tê-lo encontrado sem querer enquanto procurava outras coisas), como informação e como ilustração do despertar sociológico numa estudante de ciências sociais, como o início das reflexões. Ele está crú, a bibliografia está incompleta, basicamente não o revisei (por falta de tempo), então espero tolerância com o que foi escrito há 5 anos atrás, quando eu era ainda mais jovem.

O espaço e a cultura local diante do advento da globalização

Este trabalho visa mostrar as transformações que a globalização implicou na cultura compreendida no âmbito do local. Na sociedade globalizada as culturas locais parecem perder cada vez mais seu espaço diante da homogeneização dos processos culturais. A autonomia, a tradição, vem perdendo espaço diante da mundialização da cultura, usando o termo de Renato Ortiz.
Essa homogeneização é real? A cultura local esta realmente sendo perdida no processo de mundialização da cultura? Como ocorreu (ou ainda ocorre) esse processo? São essas perguntas que procurarão ser esclarecidas no presente trabalho.

O conceito de cultura local ganha força no século XVIII, com o advento do conceito de moderno de nação. A nação moderna busca trazer uma integração das diversidades, e não uma homogeneidade cultural. Porém esta pluralidade deve ser mantida sob o domínio de uma hierarquia. Com isso tenta-se buscar uma idéia de totalidade nacional. A nação não deve ser confundida com o Estado, a máquina de poder político-administrativo, sendo imposto por coerção e força. A nação busca se articular numa “unidade mental e cultural”, como diria Mauss, entre seus habitantes; ela propõe um ideal comum partilhado por todos. Dessa idéia de ideal, de consciência coletiva, surge também a idéia de cidadania, onde os povos sentiriam a necessidade de uma identidade nacional. Para a criação desse desejo de cidadania, para instituir esses ideais sociais, a nação se valeu de muitas técnicas, como: a criação de símbolos nacionais, de uma língua nacional (no caso dos países plurilinguísticos), contando também com a escola, a imprensa e os meios de transporte para a formação das nacionalidades. Foi através da modernidade dos meios de comunicação que uma região pôde entrar em contato com outra, que antes pareciam muito distantes. Esses formam elementos essenciais para a criação, propagação e discernimento de uma cultura local, pretendendo uma unidade nacional. No Brasil temos uma grande dificuldade em perceber essa unidade. Percebe-se com mais facilidade sentimentos regionalistas, “bairristas”, onde cada região procura cultivar suas tradições (mesmo com as reinterpretação, que pretendo discorrer depois). Acredito haverem três fatores que contribuíram muito para esta diversidade: a extensão do território do país; o fato de ser um país colonizado, e depois trazendo, assim, imigrantes de diversas partes do mundo, como suas tradições já configuradas; e também o desenvolvimento tardio dos meios de transporte e comunicação, cujo alguns lugares ainda tem grande dificuldade de acessos.
A partir do advento da modernidade, da industrialização e, principalmente, do grande desenvolvimento da comunicação, o local, o espaço-tempo, tornam-se indefinidos, a reestruturação das relações sociais e dos contextos territoriais. Os espaços são diminuídos através da construção das ferrovias e mais tarde, de aviões. Onde antes se demoravam meses para viajar a cavalo, na era moderna demora-se dias e na atualidade (na pós-modernidade, como diriam alguns) demora-se apenas algumas horas. O tempo também é diminuído. Com o advento do rádio, televisão, internet, respectivamente, as informações começam a ser simultâneas aos acontecimentos. Sabe-se do que está acontecendo (ou até mesmo do que pode estar para acontecer) do outro lado do mundo, em questões de segundos.
Diante disso, o conceito de nação vem se enfraquecendo. A cultura local vem perdendo força diante das propagandas, do consumo de uma homogeneização. Cria-se um idealismo, uma necessidade, de estar inserido no mundo, de fazer parte de uma cultura global. As tradições começam a ser questionadas, em muitos lugares não se admite mais uma verdade formular (inquestionável) como forma de justificativa. As nações com grande poder tecnológico, que detém grande parte do capital, criam um discurso político com uma argumentação cultural correspondente, que supõem o fim das diversidades nacionais, tentando convencer que a globalização é o único horizonte natural para os povos do planeta. Ela busca, de acordo com Cesnik e Beltrame, uma dominação cultural, através daqueles que detém o poder, ou mais precisamente, através dos valores norte americanos de viver. Essa dominação se daria através de programas de televisão, através da música, da imposição do idioma diante do mercado de trabalho, dos fast-foods, entre tantos outros disseminadores de valores como consumismo e individualidade defendidos pela cultura norte americana. Tem-se às vezes a impressão de que o ser aos poucos se transforma no ter.
Porém, mesmo que se pretenda, a globalização está longe de conseguir uma homogeneização cultural. Ao contrário, provoca cada vez mais grandes contrates culturais, sócio-econômicos, políticos entre os diversos povos do planeta. Nem todos estão inseridos nos valores, nem todos podem TER. A informação não chega a todos, a comida não chega a todos, as técnicas, o poder de consumo. “O mundo está dividido entre turistas e vagabundos”, como diz Zygmunt Bauman , ou seja, entre aqueles que estão inseridos na globalização e aqueles esquecidos, deixados de fora do sistema. Nestes locais, ainda se encontra uma grande resistência da cultura local, talvez uma forma de resistir ao sistema excludente.
Mas há também uma influência positiva da globalização sobre a cultura global. A globalização desloca à esfera da cultura local de espacial para uma esfera social. Diante deste sistema de rápidas informações, povos de mesmas culturas (como emigrantes, por exemplo) podem manter e estar em contato com suas culturas locais podem transpor as distâncias.
Essa rápida comunicação também permite uma organização entre grupos de diversas culturas, uma troca de conhecimentos e formação de laços que podem servir como resistência à própria dominação cultural. Esses grupos podem se utilizar das armas da própria globalização para lutar contra a sua premissa mais preocupante, a homogeneização cultural.
Outro fator importante ainda a ser relatado são as relações que o local passa a ter com o global diante do “fenômeno” da globalização. Partindo da perspectiva de A. Giddens, a globalização, como foi dito, não deve ser visto apenas como um mal para a humanidade e para a diversidade. De acordo com Giddens, vivemos numa sociedade desmantelada, onde a sociedade global prevalece sobre a local. Os paradigmas são todos regidos por um “mega paradigma”, que tem sempre sua base na sociedade global. Vivemos numa sociedade de incertezas, de neuroses. As nossas ações podem ter dimensões antes inimagináveis.
Como diz o autor, não é a penas o global que influencia no local. O local também pode influenciar no global. Nossas ações cotidianas podem desencadear em ações em grupos, e de repente desencadear numa ação mundial. A rapidez das informações, a transformação do tempo e do espaço, faz com que pequenas sejam difundidas e aderidas em diversas partes do globo. Um desses exemplos é o Fórum Social Mundial. Uma idéia que começou com um pequeno grupo de pessoas, em Porto Alegre, e rapidamente se espalhou pelo mundo, tornando-se o maior evento social do planeta. Tanto que agora, houve uma reformulação, e serão realizados anualmente Fóruns Regionais, entre países de uma mesma região, de um mesmo continente. Este é apenas um exemplo, entre tantos outros.
A tradição também não foi totalmente desfeita diante da sociedade global. Ela foi reformulada. Suas verdades não são mais inquestionáveis, agora procuram se basear em verdades proposicionais, ou seja, baseadas em algumas justificativas (não procurarei discutir a natureza dessas justificativas). Percebe-se até um diálogo internacional sobre essas tradições reformuladas, como são os casos dos Centros de Tradições Gaúchas em Roraima, EUA e Japão, por exemplo, ou o caso, dos decentes de imigrantes alemães e italianos que viajam para Itália ou Alemanha para mostrar como foi mantida a tradição fora do local. Esses países buscam um resgate do passado entre os imigrantes brasileiros, pois são tradições que não são mais mantidas nesses países.


Conclusão:

Em vista de todos os fatores apresentados acima, pode-se perceber, a princípio, um desmantelamento, um enfraquecimento da cultura e do espaço local, diante das propostas de consumo e “homogeneidade” da globalização. A globalização traz em si uma propaganda de individualidade, do tipo “compre, seja o que quiser”. Diante do conceito de supermercado cultural de Gordon Matthew o individuo, esteja onde for, pode formar sua própria identidade. As culturas locais perdem suas peculiaridades para dar lugar à miscigenação cultural, feita através das escolhas individuais de quem tem poder de consumo, de quem pode estar dentro.
Por sua vez, a globalização apresenta-se assim como um sistema de exclusão dos mais fracos, daqueles que não tem grande força, capital ou tecnologia para manter uma cultura local. Porém, como se pode ver, é possível usar das facilidades de comunicação para criar armas para resistir a esse sistema, a de dominação, através da propagação da cultura local para os mais diversos pontos do globo.
Vejo como muito importante uma resistência das culturas locais diante da homogeneidade proposta por este sistema. É claro, em muitos casos, as culturas locais sofrem grandes reformulações, muitas vezes positivas. Isso é um fenômeno natural, entendo-se que a cultura não é estática e sim, dinâmica. Mas é necessária uma resistência, para que alguns valores, como humanidade, solidariedade, sejam mantidos (ou criados!) e não nos percamos diante de uma banalização das desigualdades sociais, uma individualidade consumista e doentia, que transforma o homem em escrevo das coisas que tem e fecha seus olhos para o que há além do poder de consumo. De forma um pouco utópica, acredito que devamos usar das possibilidades implantadas pela globalização para tentar buscar uma unidade, não cultural, mas sócio-econômica entre as diversas culturas, sem desrespeitar os limites de cada local e esse respeito deve estar também, na esfera do individual, deve-se, antes de tudo, aprender a conviver com o outro, e não apenas se impor sobre ele.


Bibliografia:

Cenik, Fábio de Sá. Globalização da Cultura. Fábio de Sá Cenik, Priscila Akemi Beltrame. Barueri, SP: Manole, 2005.
Fim de Século e Globalização. Org. Milton Santos, Maria Adélia A. de Souza, Francisco Capuano Scarlato, Mônica Arroyo. São Paulo, SP: Annablume, 4a ed.

Featherstone, Mike. Cultura Global: Nacionalismo, globalização e modernidade. Trad. Attílio Brunetta. Pet´rpolis, RJ. Ed. Vozes, 2001.

Ortiz, Renato. Mundialização e Cultura. São Paulo, SP. Ed.Brasiliense, 1994.

Conteúdos e autores discutidos nas disciplinas: Temas Sociológicos Contemporâneos e Globalização e Cidadania.

8 comentários:

Iggy disse...

"A nação não deve ser confundida com o Estado, a máquina de poder político-administrativo, sendo imposto por coerção e força."

Mensagem anarquista subliminar!

Leti Abreu disse...

Ahn? Não, não é uma mensagem anarquista ou pelo menos não inteciona ser; contudo, o Estado é a forma organizativa de uma Nação, na maioria das vezes imposta a força mas naturalizada por essa, mas que pode ser substituído por outro sistema a força, como é o caso das transições política ditadura/democracia. Ou seja, Estado, que é poder, governo, não é a própria Nação, que vai muito além disso; a Nação é formada pelas suas fronteiras (e às vezes pelo além dela, como vemos nos transnacionalismos) e por tudo que estas fronteiras abarcam, manifestações culturais, sociais, tradições, tudo que está aquém do Estado
De qualquer forma, agora pensando nisso eu lembrei que eu não conhecia Marshall Sahlins na graduação mas como tudo isso aí tem a ver com "Ilhas da História" e "Pessimismo Sentimental...".

Leti Abreu disse...

E mais, só porque eu acredito que todo poder (assim como é o Estado) corresponde a coerção e força, não quer dizer que eu ache que não deveria ser assim; pelo contrário, algumas vezes a coerção é absolutamente necessária para se ter uma sociedade democrática e social, de direitos e deveres. Ou seja, definitivamente, não é uma mensagem anarquista.

Boris disse...

Devidamente justificado, eu vejo como meus trabalhos na época tb eram com blocos de paragrafos gigantes. Fica horrível pra ler.
Mas pra qual disciplina foi isso? Não lembro de na minha graduação fazer trabalhos usando autores "pós modernos" sem ser na disciplina do Holgonsi, e a avaliação dele nem lembro como foi...

Leti Abreu disse...

Prof. Joab; Disciplina: Temas Sociológicos Contemporâneos.
O Holgonsi (ou Soares) é a própria pós-modernidade, eheheh

Leti Abreu disse...

Parágrafos enormes a la Bourdieu, eheheh

Boris disse...

Não tive aula com este carinha, infelizmente, acho q iria gostar desta cadeira.

Leti Abreu disse...

Ele era mais ou menos, sei lá, talvez meio inseguro porque tava começando lá no curso e daí, era meio chato; mas a disciplina era interessante..